
Canova está a 1% do caminho e julgamento virou gargalo de IA
Três anos dentro da Canva e o que vem por aí
O autor passou três anos na Canva (março de 2023 a maio de 2026), onde liderou Discovery, incubou o Magic Studio, dirigiu o grupo de IA generativa e foi product lead do Canva AI 2.0. A frase mais repetida internamente é "we're one percent of the way there" - dita por Melanie Perkins desde quando a empresa tinha centenas de pessoas até atingir 5.000 funcionários e 250 milhões de usuários.
Origem e cultura
A história de origem (Perth, mais de 100 rejeições de investidores, Mel aprendendo kitesurf para se aproximar de um investidor) produziu dois traços duradouros: lucratividade desde 2017 (a empresa chegou a passar dois anos reescrevendo o codebase inteiro sem lançar features novas) e o hábito de derivar tudo do zero, longe das convenções de San Francisco. O autor descreve a cultura como "laid-back intensity" - ninguém estressado por aparência, todos se movendo extremamente rápido.
O deck de 2011 como spec permanente
Antes da empresa existir, Mel criou um pitch chamado "Canvas Chef": descrever uma ideia e tê-la materializada sem saber design. Quinze anos depois, ela citou o próprio deck ao lançar uma IA que faz exatamente isso. O documento funciona como spec até hoje; quando milhares de pessoas conseguem prever o que a fundadora diria, param de perguntar, e ela escolhe onde se envolver em vez de ser gargalo em tudo.
O episódio do redesenho
No Canva AI 2.0, a equipe levou para review um sistema de memória baseado em lista de fatos. Mel considerou "techie" demais, abriu um design em branco na hora e prototipou uma biblioteca - prateleiras organizadas por categoria (eventos da vida, campanhas, verdades sobre o usuário) com um botão de onboarding que gera um documento "About Me". O trabalho de semanas foi descartado em dez minutos. O autor argumenta que esse padrão seria corrosivo na maioria das empresas, mas na Canva é celebrado porque a expectativa, desde cedo, é que a melhor ideia pode chegar a qualquer momento e o redesenho serve ao resultado, não ao ego.
O "harness"
O autor usa a metáfora de harness de LLMs: Mel é o modelo que faz a chamada; o harness é tudo ao redor - o contexto (o deck de 2011), a ferramenta (o produto) e o loop (os reviews). Antes do lançamento do Canva AI 2.0, Mel revisou o produto como power user e voltou com 20 slides de problemas, incluindo a animação de hover de um logo na sidebar; esses slides viraram um time de polish nos meses finais. Cliff Obrecht, cofundador e marido de Mel, é descrito como um dos melhores operadores que o autor já viu e a segunda voz que impede o sistema de colapsar em monocultura.
O gargalo que muda
A tese central: para a maior parte da história do software, o gargalo era construir. Com agentes de código comprimindo o tempo entre ideia e versão funcional para uma tarde em vez de um trimestre, o gargalo se desloca para a velocidade com que bom julgamento alcança o trabalho. É o problema que a Canva resolve desde 2013 sem se dar conta. O autor confessa que o loop acabou superando a ele próprio: morando na Califórnia com o time em Sydney, a diferença de 17 horas de fuso virou o espaço onde decisões aconteciam sem ele.
O que é copiável
Muitas empresas vão tentar replicar o "founder mode" e ficar com a metade visível - fundador nos detalhes, reviews, redesenhos - que sozinha gera bagunça. O harness é o trabalho real. Não há como instalar uma Melanie Perkins, mas o harness pode ser copiado, assim como a decisão sobre o que fazer com o dinheiro antes de tê-lo: Mel e Cliff comprometeram mais de 80% da riqueza, incluindo 30% da empresa, para transferências incondicionais de dinheiro a pessoas em pobreza extrema.