
Trabalhadores indianos gravam rotina para ensinar robôs a trabalhar
Corrida por dados de "IA física"
De lixões de reciclagem em Délhi a fábricas de calçados e armazéns em Bangalore, dezenas de milhares de trabalhadores indianos estão sendo recrutados para gravar, com câmeras presas à cabeça ou a bonés, os movimentos detalhados de suas próprias mãos enquanto trabalham. O objetivo é alimentar os sistemas de IA que ensinam robôs humanoides a executar tarefas físicas reais - como separar plástico, costurar sapatos, soldar, dobrar, empilhar e embalar.
O exemplo central é o de Sunita Rathore, de 43 anos, que ganha cerca de 20 mil rúpias por mês separando plástico e recebe 150 rúpias extras por hora para gravar sua rotina com um iPhone na testa. Ela não sabe para que as imagens serão usadas, mas o pagamento adicional virou uma fonte inédita de renda para a educação dos filhos.
Por que vídeo de tarefas manuais virou gargalo
O artigo sustenta que o maior obstáculo para robôs no mundo real não é hardware nem algoritmo, mas dados. Modelos de linguagem foram treinados com texto, fotos e vídeos já existentes; já a "IA incorporada" precisa de gravações em primeira pessoa de gestos manuais comuns, um tipo de dado escasso porque ninguém o coletava em escala. Empresas como Tesla, Figure AI, Agility Robotics, Unitree, AgiBot e UBTech disputam esse material.
A Nvidia afirma que IA física exige "ordens de magnitude" mais dados de treinamento do que já foi produzido. Citigroup projeta que o mercado de robôs humanoides, modelos de mundo e serviços relacionados pode chegar a US$ 7 trilhões até 2050; o mercado de dados de treinamento em vídeo deve crescer de US$ 11,9 bilhões neste ano para US$ 49,8 bilhões em 2031.
A Índia como polo global de coleta
Como a China mantém boa parte de seus dados dentro do país e os EUA não têm escala suficiente de trabalho manual, a Índia virou a fonte mais rica de gravações úteis para robôs. Startups como Build AI, BergLabs AI, ManuData e Awign capturam, limpam, anotam e vendem vídeos de trabalhadores em fábricas, fazendas, obras e casas.
A Build AI, fundada por Eddy Xu, de 19 anos, afirma já ter equipado mais de 14 mil operários e acumulado mais de 1 milhão de horas de filmagens. A Awign registra milhares de horas por dia em 1 mil cidades e mira 2 milhões de horas até o fim do ano. Entre os compradores citados estão Physical Intelligence, Figure AI, Nvidia e Apple.
Preços, ética e o futuro desses trabalhadores
O vídeo bruto em primeira pessoa vindo da Índia custa a partir de US$ 7 por hora; quando anotado em detalhe, pode valer de US$ 15 a US$ 30 por hora ou mais - cerca de um terço do preço equivalente nos EUA. Ao mesmo tempo, o texto aponta falhas de consentimento e transparência: muitos trabalhadores não entendem como os dados serão usados, e formulários são frágeis ou inexistentes.
A nova lei indiana de proteção de dados pessoais só terá obrigações centrais a partir de 2027. Especialistas alertam que mesmo imagens sem rostos podem capturar ambientes íntimos e informações biométricas. Para os trabalhadores, a coleta rende dinheiro hoje; depois, a automação pode eliminar exatamente as funções que eles estão ensinando às máquinas.