
'Temuzificação' do software: conteúdo barato de IA e luxo humano
A hipótese da “Temuzificação”
O texto propõe, como hipótese especulativa, que software, livros, música, filmes e outros bens digitais caminham para um mercado de dois níveis. No segmento inferior, conteúdos gerados por modelos de linguagem seriam produzidos em grande escala, a custo muito baixo e com qualidade apenas suficiente para parecer aceitável. No superior, obras reconhecidamente humanas seriam mais escassas, especializadas e caras, transformando autoria, ofício e procedência em atributos de luxo.
A analogia com Temu e Shein está na compressão e externalização dos custos: produtos baratos tornam invisíveis impactos sobre trabalhadores, resíduos, saúde e ambiente. No caso digital, o trabalho humano histórico usado para treinar os modelos seria “comprimido” em sistemas capazes de devolver textos, imagens, músicas ou código a custo marginal próximo de zero - desde que os custos de computação também diminuam. O custo externalizado, segundo o autor, seria sobretudo a qualidade, que exige habilidade para ser produzida e atenção para ser percebida.
Código, livros e conteúdo em escala
O exemplo mais direto seria o vibe coding: a pessoa descreve o que quer, aceita o código gerado, refina instruções e coloca o resultado em produção sem necessariamente entender sua implementação. O texto cita um relatório de 2025 da Veracode segundo o qual cerca de 45% das amostras de código gerado por IA falharam em testes de segurança e continham vulnerabilidades críticas do OWASP Top 10. Também menciona estudos que encontraram falhas como credenciais expostas, injeção de SQL e estouros de buffer, além de um artigo revisado por pares que registrou aumento de 37,6% nas vulnerabilidades críticas após cinco prompts iterativos. O autor ressalva que engenheiros experientes podem usar essas ferramentas de modo eficaz e reconhece o argumento de que elas talvez apenas eliminem um gargalo de um software que já era medíocre. Sua preocupação é o uso por pessoas incapazes de avaliar o que é bom, sem revisão posterior.
Na publicação de livros, estimativas citadas apontam para 10 mil a 40 mil títulos gerados por IA enviados mensalmente ao Kindle Direct Publishing. Em junho de 2023, apenas 19 livros escritos por humanos apareceriam entre os cem mais vendidos da Kindle. Guias de viagem, nutrição e saúde e adaptações de obras em domínio público são apresentados como categorias especialmente afetadas, embora o texto reconheça que conteúdo de baixa qualidade e publicação sob demanda já existiam antes. A diferença seria a escala, capaz de inundar catálogos.
O mesmo padrão aparece em artigos e vídeo: uma análise de 65 mil textos teria concluído que pouco mais da metade dos novos artigos na internet já é gerada por IA; no YouTube, quase 10% dos canais de crescimento mais rápido seriam exclusivamente desse tipo, e mais de um em cada cinco Shorts mostrados a novos usuários seria material gerado de baixa qualidade. Na música, o Spotify teria removido 75 milhões de faixas consideradas spam em um ano, enquanto a banda gerada por IA The Velvet Sundown teria obtido mais de um milhão de reproduções antes de ser desmascarada.
Resistências e futuro possível
Há sinais de resistência: o envolvimento com artigos gerados teria caído cerca de 40% em 2024, alguns estudos apontariam 5,4 vezes mais tráfego para conteúdo humano e 38% dos consumidores declarariam ceticismo. O texto também cita regras da WGA que limitam o uso de IA em roteiros e diretrizes da Netflix que permitem ideação, mas não a substituição de trabalho sindicalizado sem aprovação. Ainda assim, interpreta essas barreiras como adiamento, não garantia de contenção.
A previsão central é que a Netflix possa oferecer, em cinco a dez anos, uma assinatura básica predominantemente formada por conteúdo gerado ou assistido por IA, enquanto obras humanas seriam reservadas a uma camada premium. O autor admite não poder provar esse cenário e lista contrapontos: a qualidade dos modelos pode melhorar a ponto de a distinção perder importância; consumidores podem rejeitar feeds inundados por IA; e conteúdos gerados a partir de outros conteúdos gerados podem degradar os dados de treinamento.
A conclusão não é de desaparecimento imediato de programadores, escritores, atores ou músicos, mas de estreitamento e reconfiguração de seus mercados. A produção humana poderia sobreviver como nicho mais caro, sustentado por procedência verificável e disposição do público a pagar. Nada disso seria inevitável: plataformas, reguladores, consumidores e profissionais ainda influenciarão o tamanho de cada camada e se o trabalho humano continuará economicamente viável.