
Fundadores de tecnologia vivem cada vez mais conectados ao fluxo de notícias
A urgência de acompanhar tudo
Fundadores, investidores e outros profissionais do ecossistema de startups estão cada vez mais conectados ao fluxo de notícias e discussões em redes como o X. O texto investiga se essa presença constante gera vantagens reais - como informação, distribuição e acesso a tendências - ou se apenas alimenta uma forma de desgaste mental associada ao excesso de exposição e à chamada “psicose” das redes.
Shensi Ding, CEO da Merge, afirma que, especialmente no setor de inteligência artificial, as mudanças são tão rápidas que um fundador precisa saber o que acontece “todos os dias”. Ela concentra sua atenção em infraestrutura, assistentes de IA e governança, enquanto deixa temas como hardware e data centers para o marido, que trabalha mais próximo dessas áreas. Segundo Ding, a vantagem competitiva de uma empresa pode durar no máximo de seis a 12 meses, contra três a cinco anos no passado, o que exigiria lançamentos contínuos.
Para Olivia Moore, investidora da a16z, acompanhar a rede serve para selecionar produtos e microtendências úteis aos fundadores de seu portfólio. Ela vê o X como uma espécie de praça pública digital do setor, embora reconheça que essa justificativa pode ser apenas uma racionalização para seu tempo excessivo de tela. Ken Wattana, fundador da Conto, monitora o chamado “Tech Twitter” como profissionais de finanças historicamente acompanhavam terminais da Bloomberg. Por não estar no círculo interno do Vale do Silício, ele usa a rede para entender o que mobiliza os participantes do setor; publicar com frequência também teria ajudado na distribuição e no reconhecimento de sua startup.
Benefícios, ruído e transformação em mercado
Bilal Zuberi, da Red Glass Venture, diz permanecer online para estar acessível a fundadores e incentivá-los a mostrar autenticidade, inclusive vulnerabilidades. Ele, porém, aponta um lado sombrio: a desvalorização do jornalismo sério permite que qualquer pessoa faça afirmações sem o mesmo nível de responsabilização, enquanto seguidores fiéis podem proteger seus autores de críticas. O texto também observa que a multiplicação de podcasts, estúdios e veículos ligados a investidores e empresas mistura cada vez mais informação, promoção e entretenimento.
Yoni Rechtman, da Slow Ventures, identifica uma contradição: investidores que apoiam startups por uma década ou mais estão se comportando como operadores de curto prazo nas redes. Para ele, os mercados privados se aproximam dos mercados públicos. Novas avaliações, receitas e possíveis ofertas públicas funcionam como sinais de negociação, e mercados de previsão podem permitir apostas indiretas sobre eventos como os futuros IPOs de Anthropic e OpenAI. Ainda assim, Rechtman considera que as redes oferecem mais um pulso do consenso emergente do que informações imediatamente acionáveis.
Higiene cognitiva
Jane Manchun Wong reduziu a exposição ao criar um feed próprio, semelhante a um RSS, e ao usar o Techmeme para acompanhar notícias sem entrar em longas sequências de postagens. Ela continua observando o X para captar conversas e sentimentos gerais, mas passou a priorizar encontros presenciais e publicações locais.
A conclusão é ambivalente: estar online pode ajudar na distribuição, no acesso a tendências e na compreensão do ecossistema, mas não necessariamente produz vantagem prática proporcional ao tempo investido. Com mais pessoas conversando com agentes de programação e assistentes de IA, o risco de afastamento da realidade poderia crescer. Rechtman defende, por isso, uma “higiene cognitiva” mantida ativamente para conter o efeito do ciclo acelerado de memes e notícias urgentes.