
Myriam Wares pinta um inverno surreal sobre recomeçar na Itália
Uma mudança traduzida em imagens
A ilustradora franco-canadense Myriam Wares criou a série Winter depois de se mudar de Montreal para Turim, na Itália, com o desejo de viver perto dos Alpes. Embora tenha trocado a neve canadense por um clima mais quente e fale francês, inglês e italiano, ela relata ter se sentido desorientada e deslocada no novo país. A série nasceu como uma forma de compreender essa experiência de recomeço, marcada por saudade, estranhamento e pela sensação de não pertencer completamente a nenhum dos dois lugares.
Wares afirma que não quis representar o inverno de maneira literal. Em vez disso, reuniu elementos cotidianos encontrados na Itália e os organizou em um microcosmo surreal, regido por uma lógica e uma estética próprias. Vasos de barro gigantes, laranjas e limões enormes, ciprestes e pisos ornamentados aparecem em composições que transformam objetos familiares em cenas estranhas e simbólicas. Em todas elas, o sol funciona como um elemento recorrente.
Um inverno entre dois mundos
As imagens se afastam da associação convencional entre inverno, paisagens desoladas e céus cinzentos. A neve aparece apenas em metade das composições, enquanto a outra parte permanece sob a luz e os sinais visuais da Itália. Essa divisão sugere a condição intermediária vivida pela artista: um pé no Canadá e outro na Itália. A série combina simbolismo, referências à história da arte e técnicas tradicionais de pintura para expressar essa tensão sem recorrer a uma descrição realista da estação.
O trabalho integra o universo surreal de Wares, que também inclui Still Lives From Elsewhere, um díptico inspirado pela Itália e construído com detalhes simbólicos. A artista trabalha como freelancer há quase uma década, e suas ilustrações já foram reconhecidas pela Society of Illustrators, pelos World Illustration Awards, pela Communication Arts e pela 3x3.
O tempo do pertencimento
A série sugere que viver no exterior altera mais do que o endereço: também modifica a maneira de perceber a vida cotidiana. Coisas banais podem parecer estranhas e desconhecidas durante a adaptação, mas Wares transforma essa sensação em imagens de beleza e lógica própria.
Winter permanece, assim, como um registro de um estado passageiro entre a vida deixada para trás e a nova rotina em construção. A fonte conclui que o processo leva tempo: os limões gigantes, os pisos ornamentados e outros elementos de Turim podem, um dia, tornar-se tão comuns para Wares quanto uma tempestade de neve de Montreal.