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Estudante entrega caderno de esboços à máquina de venda que devolve quadro pronto, criatividade terceirizada
Produto & Design · IA & Modelos

A criatividade que terceirizamos para a IA sem perceber

resumo de ~3 min

Um designer de 60 anos parte de uma pergunta: o que acontece com nossa capacidade de criar quando deixamos de viver o processo de criar? O autor vem de uma geração que aprendeu fazendo as coisas devagar, com erros e recomeços, sem IA generativa para produzir um design ou um texto em segundos.

O modo aberto de John Cleese

O argumento se apoia em John Cleese, comediante e escritor britânico. Para ele, pessoas criativas precisam de um espaço aberto e lúdico de experimentação: brincar não é improdutividade, e sim testar sem saber se algo funciona, admitindo ideias ruins - às vezes é ali que o interessante começa. Cleese descreve um 'modo aberto', distinto do modo fechado usado para decidir e executar - mas migrar rápido demais para o modo de solução elimina o tempo de exploração. A IA entra aí: é ótima em entregar uma solução antes que tenhamos tido tempo de explorar o problema.

Do Photoshop à IA generativa

O Photoshop já havia mudado o ofício ao permitir corrigir, copiar, desfazer e alterar o que antes seria perdido - mas restou a dúvida: o que deixamos de aprender sem precisar fazer sozinhos? Desenhar à mão ensina a ver de outro jeito; recomeçar um projeto desenvolve noção de forma, proporção e decisão; sem o 'desfazer', é preciso entender por que algo não funciona. O Photoshop removeu parte do atrito sem eliminar o processo. A IA generativa vai muito além: escreve textos, cria imagens, desenvolve conceitos, gera variações e ainda explica por que as ideias supostamente são boas. Daí a crítica ao discurso de produtividade: a pergunta real não é quanto trabalho a IA pode assumir, e sim o que talvez não devêssemos entregar.

Tempo de trabalho não é tempo de aprendizado

Um designer iniciante que gera dez variações em segundos tem vantagem enorme, mas as horas que gerações anteriores gastavam para produzi-las não eram só trabalho: eram aprendizado, prática, observação, frustração, acidentes e erros - e aprendemos mais com os erros do que com os acertos. A distinção importa sobretudo para crianças, adolescentes, estudantes e jovens designers. Se um aluno recebe do ChatGPT uma redação melhor do que escreveria sozinho, mas ele aprendeu a desenvolver uma ideia, estruturar um texto e achar a própria voz - ou apenas a dar as instruções certas à máquina? São habilidades muito diferentes.

O perigo está no caminho, não no resultado

Costumamos julgar o resultado final, mas a criatividade acontece no caminho até lá - e vemos cada vez menos desse percurso. Uma redação excelente feita com IA pode não revelar que parte do pensamento nunca aconteceu: o resultado pode ser melhor do que o processo de aprendizado, e é aí que o autor situa o perigo.

Novas regras, não proibição

O autor não defende banir a IA de escolas, universidades ou estúdios - isso seria tão irrealista quanto retirar o Photoshop do design. Mas talvez sejam necessárias novas regras, porque nem tudo que pode ser automatizado deveria ser: desenvolver a primeira ideia sem IA, escrever o texto antes de pedir melhorias à máquina, fazer o rascunho à mão, receber tarefas em que errar seja encorajado. Não porque os métodos antigos sejam melhores, mas porque é por eles que se aprende algo que nenhuma máquina ensina: como ter uma ideia por conta própria.

User Experience e Learning Experience

Isso também é uma questão de UX: além da User Experience, seria preciso pensar em uma Learning Experience. Um sistema que leva o designer iniciante direto ao resultado perfeito pode facilitar a vida e, ao mesmo tempo, deixar as pessoas menos capazes. O desafio seria desenhar sistemas de IA que ajudem sem roubar as experiências pelas quais as pessoas ficam melhores no que fazem.

Espaços sem IA

Retomando Cleese, a conclusão propõe criar deliberadamente espaços onde a IA não entra de imediato - para ideias ruins, desvios, tédio, trabalho manual, tentativa e erro e os minutos sem resposta - e talvez ensinar de novo aos jovens que não ser bom de imediato é aceitável, porque é aí que o aprendizado começa. A IA pode aliviar trabalho, inspirar e desafiar, mas a jornada que nos torna criativos não deveria ser entregue com facilidade: talvez o maior valor de uma primeira ideia ruim seja termos tido nós mesmos. O texto fecha com a frase de Cleese - 'se você quer ser criativo, permita-se ser estúpido' - defendendo menos perfeição e mais brincadeira na era da IA.