
Animação caseira chinesa vira hit como revolta contra o visual de IA
Um filme de orçamento quase zero
"Niu Lai" é um filme de animação chinês produzido com orçamento quase zero, quase inteiramente por uma mãe e um filho usando computadores de segunda mão. O diretor, Xin Yumeng, é ex-designer de interiores sem formação em cinema, baseado em Dalian, cidade costeira da província de Liaoning, no nordeste da China. Ele passou cinco anos criando a obra no tempo livre e assumiu todas as funções: modelagem, animação, iluminação e edição. A mãe dele, Sun Lifang, aprendeu roteiro sozinha e dublou as personagens femininas.
O autor não suaviza a qualidade: movimentos trêmulos, modelos 3D toscos, efeitos sonoros estranhos e um enredo que não faz muito sentido. Ainda assim, o público chinês transformou o filme em fenômeno de bilheteria, em um cenário em que uma superprodução de US$ 300 milhões como "Supergirl" luta para interessar alguém.
Do deboche nas redes às dez maiores bilheterias
A estreia foi modesta: sem trailer, sem divulgação e com um único pôster em nanquim, o filme chegou a 245 cinemas em 5 de agosto e arrecadou apenas 7.169 yuans (cerca de US$ 1.000) nos primeiros nove dias. A virada veio das redes sociais: usuários passaram a compartilhar clipes para zombar da animação de baixo custo, até que o "tão ruim" virou "tão ruim que é bom" e a zombaria deu lugar ao fascínio.
A bilheteria acumulada superou 25,67 milhões de yuans (cerca de US$ 160 mil), colocando a obra entre as dez animações de maior bilheteria na China neste ano - um retorno extraordinário sobre o investimento mínimo. Cinemas sem pôster oficial chegaram a pedir aos funcionários que desenhassem os próprios à mão. O consenso, segundo o texto, é que o filme foi claramente, dolorosamente feito por mãos humanas - algo que faltava na animação em CG geometricamente precisa que domina hoje.
A tese do momento punk
O autor, que relembra ter visto os Sex Pistols na TV em 1976, traça um paralelo histórico: no início dos anos 1970, a nova tecnologia tornou o rock altamente produzido, limpo e puro, porém entediante e formulaico. A reação veio no fim da década com o punk, em bandas como Sex Pistols, The Damned e The Clash, que chocaram o público da época.
Ele diz suspeitar há tempos de que uma dinâmica semelhante ocorrerá com a IA: como então, uma nova tecnologia assumiu a produção de obras criativas, mas desta vez alcança não só a música, e sim uma ampla gama de produtos culturais, da arte ao design visual e agora ao cinema. A reação, provavelmente, virá de lugares inesperados - e este filme chinês parece ser um deles.
Contraponto e leitura mais ampla
Uma reportagem anterior do colega Joe Foley avaliou o fenômeno de forma negativa, mas o autor discorda: para ele, a história é divertida, e ele prefere assistir algo divertido a algo tecnicamente perfeito, porém vazio e sem alma. Os críticos, observa, soam como os velhos que um dia descartaram as bandas punk como ruído impossível de ouvir.
Mais amplamente, o entusiasmo chinês por "Niu Lai" conversa com o que o autor escuta de pessoas comuns em seu país: elas estão cansadas de visuais, músicas e vídeos de IA e buscam desesperadamente alternativas autênticas. Em 2026, segundo a leitura dele, quanto menos polimento digital uma obra tem, mais chance tem de agradar - uma revolução cultural que ele diz apoiar, desta vez sem cuspidas nem palavrões.