
Anthropic volta a cortejar o Pentágono após lista negra
Uma reaproximação com a área de segurança nacional
A Anthropic abriu uma vaga para liderar sua equipe de vendas de “Segurança Nacional”, em uma iniciativa que pode indicar uma tentativa de reconstruir sua relação contratual com órgãos militares e de inteligência dos Estados Unidos. O cargo, segundo uma oferta pública analisada pelo Prospect, terá a missão de ampliar a adoção de inteligência artificial de fronteira considerada segura no Departamento de Guerra e na comunidade de inteligência, com remuneração de até US$ 700 mil por ano.
A movimentação ocorre depois de um conflito prolongado com o Departamento de Defesa e o governo Trump. O órgão havia classificado a Anthropic como risco à cadeia de suprimentos de segurança nacional e, posteriormente, proibido a empresa de fazer negócios com o governo federal ou com qualquer contratado federal. A empresa contestou a decisão, afirmando que ela representava retaliação política às restrições que havia estabelecido para o uso de seus sistemas em vigilância doméstica em massa e em armas totalmente autônomas.
Uma decisão iminente de um tribunal federal de apelações deverá avaliar se o Departamento de Defesa agiu ilegalmente ao colocar a Anthropic na lista negra. O resultado pode abrir caminho para novas oportunidades de contratos de defesa, e a vaga sugere que a empresa já se prepara para essa possibilidade. A Anthropic não explicou como pretende voltar a disputar contratos nem como garantir que suas restrições de uso sejam respeitadas pelas Forças Armadas e pelas agências de inteligência. Também não está claro se a reaproximação exigirá concessões às demandas desses órgãos.
Os riscos do uso militar
A tentativa de ampliar a presença da Anthropic no setor ocorre enquanto órgãos militares e de inteligência aceleram a adoção de IA para aplicações como vigilância sofisticada e sistemas autônomos de armas. Organizações de direitos humanos e liberdades civis afirmam que essas tecnologias podem aumentar os danos contra civis, reduzir a responsabilização pelo uso de força letal e permitir invasões de privacidade sem supervisão. O texto cita como exemplo um ataque na Ucrânia no qual um drone russo totalmente autônomo matou três civis ao descer sobre um posto de gasolina.
Amos Toh, do Brennan Center, disse que a automação aumenta o ritmo da guerra e permite produzir centenas ou milhares de recomendações de alvos. Segundo ele, isso pode ampliar significativamente a escala dos danos, enquanto modelos de IA podem gerar recomendações convincentes, mas completamente erradas. Toh também alertou que agentes de IA podem atacar infraestruturas cibernéticas ou vazar informações classificadas sem que os militares ou os desenvolvedores percebam. Para ele, integrar esses sistemas a estruturas militares sem salvaguardas e diligência suficientes envolve um grande risco à segurança nacional.
Concorrência por contratos
O embate se intensificou após relatos de que o Claude foi usado em uma operação militar para capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro e de que a tecnologia da Anthropic esteve implicada em um ataque de drone americano contra uma escola de meninas no Irã. A Casa Branca respondeu chamando a empresa de “radical de esquerda” e, horas depois, o Departamento de Defesa assinou um acordo com a OpenAI.
A OpenAI assegurou que seus serviços não seriam usados por agências de inteligência como a NSA nem intencionalmente para vigilância doméstica de cidadãos americanos. Ainda assim, uma executiva da área de robótica deixou a empresa, argumentando que vigilância sem supervisão judicial e autonomia letal sem autorização humana exigiam mais deliberação. Agora, a OpenAI também reforça sua equipe de contratos de segurança nacional, contratando representantes com autorização para informações ultrassecretas. A disputa entre as empresas, portanto, continua condicionada tanto à expansão dos contratos militares quanto aos limites que cada uma aceitará para o uso de seus sistemas.