
O designer de produto não desaparece, vira arquiteto de produto
A ruptura do processo tradicional
O texto defende que o designer de produto não está desaparecendo, mas assumindo uma função mais ampla e menos delimitada. A ascensão da IA e do chamado vibe coding estaria dissolvendo as fronteiras entre design, engenharia e gestão de produto, levando uma só pessoa a definir o problema, decidir como o produto deve funcionar e conduzir sua implementação.
Durante quase duas décadas, o desenvolvimento de software seguiu uma sequência relativamente previsível: o gerente de produto pesquisava o problema e escrevia um documento de requisitos; o designer traduzia essas exigências em telas estáticas no Figma; e o engenheiro interpretava os arquivos para produzir o código. Esse modelo criou departamentos, trajetórias profissionais e ferramentas especializadas em transferir o trabalho de uma etapa para outra.
Segundo o autor, ferramentas como Claude e Cursor conseguem ler um documento de requisitos de 20 páginas, usar um sistema de design existente e gerar um protótipo funcional a partir de um único comando. Com isso, a etapa intermediária entre a definição do produto e sua implementação deixa de ser apenas mais rápida e começa a desaparecer. O trabalho passa a ocorrer em um processo contínuo, no qual o que será construído, sua aparência e seu funcionamento são decididos quase simultaneamente.
Do desenho de telas à arquitetura do produto
O autor relata ter usado Claude para criar sozinho um aplicativo de diário. A maior dificuldade não foi escolher a aparência das telas, mas resolver questões estruturais: cadastro, convites, marcação de amigos, compartilhamento, falhas de rede e comportamento diante de dados incompletos, atrasados ou incorretos. Também foi necessário avaliar se cada recurso resolvia um problema real ou apenas existia porque as ferramentas tornavam sua construção fácil.
Claude teria cuidado da sintaxe, da lógica e dos mecanismos de implementação, mas não poderia decidir se o produto valia a pena. Esse julgamento permaneceu com o autor. A partir dessa experiência, ele propõe a figura do “arquiteto de produto”, profissional que combina três comportamentos: priorizar a lógica do sistema e o fluxo de dados antes dos pixels; dirigir agentes de IA para executar o código; e aplicar curadoria para decidir o que entra, o que deve ser eliminado e como a experiência deve ser percebida.
O valor do designer
A tese é que o valor do designer nunca esteve na quantidade de telas produzidas ou de componentes organizados, mas no julgamento por trás desses artefatos. Quando a execução se torna quase instantânea, o trabalho passa a ser decidir quais partes do produto merecem ser construídas e como o software deve tratar as pessoas.
O fim dos repasses entre áreas pode eliminar tarefas mecânicas, como ajustes repetitivos de espaçamento, cores e variações de telas. Isso não significa que o design visual perdeu importância. O autor afirma continuar usando o Figma e sustenta que repertório de hierarquia, espaçamento, fluxo e composição continua diferenciando bons resultados. A diferença é que esse conhecimento passa a influenciar decisões mais cedo, antes da existência de uma tela pronta.
A conclusão é que a indústria precisará menos de profissionais limitados a desenhar interfaces para outras pessoas implementarem e mais de designers capazes de construir do zero, compreender sistemas, orientar a IA e exercer julgamento. O papel fica mais estranho e menos fácil de nomear, mas também pode recuperar a autonomia e o propósito central do design.