
Cultura boa é o maior hack de produtividade, não a IA
A tese: cultura antes de ferramentas
Gregor Ojstersek, com mais de 13 anos de carreira em engenharia, argumenta que o foco excessivo em ferramentas de IA está deslocando a atenção do que realmente determina produtividade: a cultura da organização. Ele reconhece que a IA está mudando a forma de construir software e que ele mesmo a usa diariamente, mas sustenta que nenhum ganho de produtividade oferecido por IA supera o de uma boa cultura. O ambiente em que as ferramentas são usadas importa mais que as ferramentas em si.
Frases que quebram a cultura
O autor aponta declarações como "isso é muito fácil de fazer agora com IA, não precisamos de tanta gente" - vindo de executivos como CEO, CPO ou CTO - como destruidoras da segurança psicológica, pois fazem as pessoas duvidarem da própria relevância. Ele relata ter ouvido esse tipo de frase com frequência em 2025 e no início de 2026, e avalia que a situação melhorou um pouco neste ano.
Lei de Conway como mecanismo
A razão pela qual a IA não aumenta produtividade "magicamente", segundo Ojstersek, está na Lei de Conway: organizações que projetam sistemas produzem designs que copiam suas estruturas de comunicação. A produtividade e o produto final tendem a imitar a cultura da organização - cultura ruim gera produto ruim, porque as pessoas não colaboram nem se comunicam bem. Ele usa a analogia da saúde humana: sem ela, nada mais funciona bem.
Cuidado com relatos de ganhos de 10x
Executivos costumam entrar em pânico e culpar suas equipes ao ver concorrentes relatando ganhos de produtividade de 10x com IA. O autor alerta que muitos desses relatos servem, na prática, para vender um produto de IA ou promover uma parceria. Sua recomendação é sempre examinar os incentivos de quem fala, pois isso diz muito sobre a veracidade do que é dito. Culpar as pessoas sinaliza desconfiança e piora a cultura, pesando especialmente sobre engenheiros e líderes de engenharia, vistos como responsáveis por iniciar a adoção de IA.
A IA amplifica o que já existe
Para o autor, IA e boa cultura andam juntas: a IA torna a má comunicação pior e a má arquitetura pior; por outro lado, com boa cultura e boa arquitetura, as pessoas se ajudam e a IA tem um melhor modelo do que é trabalho de qualidade. Sem processos, arquitetura e colaboração, "todos apenas vão na direção errada mais rápido".
Sinais de boa cultura e mensagens corretas
O autor sugere perguntas para diagnosticar cultura: as pessoas sabem suas responsabilidades? Decidem sem aprovações desnecessárias? Sentem-se seguras para desafiar a liderança? Os times confiam uns nos outros? As prioridades são claras? Há discordância construtiva? Premiam-se resultados? Aprendem-se com falhas ou busca-se culpados? Ele também mantém um checklist para avaliar organizações de engenharia, disponível para assinantes pagos.
Sobre comunicação da adoção de IA, sua recomendação é enquadrar a IA como mais uma ferramenta que bons engenheiros aprendem a usar em favor do negócio - nunca mencionar "substituição" ou mensagens de que alguém deixou de ser importante. Para ele, a adoção de IA funciona de baixo para cima, nunca de cima para baixo, porque as ferramentas mudam rápido e exigem troca constante de conhecimento. Forçar as pessoas gera resultados ruins. "Adoção de IA não é um problema de ferramentas, é um problema de liderança", e o objetivo deve ser o sucesso do negócio, não aumentar o uso de IA em si.
Contratar mais, não menos
Retomando um artigo seu de julho de 2025, Ojstersek defende que as melhores empresas contratam mais engenheiros, não menos, aumentando a produtividade exponencialmente - desde que a cultura esteja boa. Ele considera o time to time to market (TTM) uma métrica crucial na era da IA e vê baixa produtividade como um passivo que pode reduzir participação de mercado no longo prazo. Em sua opinião, apostar em "substituir engenheiros por IA" piora a empresa.
Conclusão
A pergunta certa para líderes não é "como fazer todos usarem IA?", e sim: "como construir uma organização onde pessoas excepcionais façam seu melhor trabalho e, então, usar a IA para multiplicá-las?". Para o autor, a grande cultura é o maior hack de produtividade.
Nos comentários
Leitores concordaram com a centralidade da cultura. Nathan Gedamke apontou uma lacuna: falta discutir o incentivo positivo para engenheiros adotarem IA; sem isso, prevalece o medo de precisar entregar 4 a 10 vezes mais no mesmo horário e ainda assim ser demitido - o "elefante na sala" que líderes precisam enfrentar.