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Envelope de papel abrindo como porta para sala de controle com telas, e-mail como interface universal para software
Dev & Engenharia

E-mail como interface universal de software

resumo de ~3 min

A tese: e-mail como interface universal

Matthew Guay argumenta que o e-mail, a segunda interface de software mais antiga depois do terminal, deveria ser a interface universal para softwares. A base do argumento é estrutural: cliques em botões e formulários na web são, nos bastidores, envios de dados a servidores ligados à conta do usuário - e o e-mail é essencialmente texto estruturado (assunto, corpo, endereço de destinatário e remetente), algo como uma chamada de API disfarçada de carta legível por humanos. Enviar uma tarefa a um colega por e-mail não é, em termos de dados, muito diferente de atribuí-la num aplicativo de gestão de projetos.

As origens: recursos escassos e plataformas fragmentadas

Nos tempos da ARPANET, antes da web, as plataformas de computação eram fragmentadas. Ray Ozzie, ao falar do desenvolvimento do Lotus Notes, descreveu a necessidade de dar suporte a variantes de Unix, Motif, Open Look, Mac OS, Windows e NT, o que forçava decisões de alocação de recursos. Times pequenos, sem recursos, encontraram no e-mail o atalho: como resumiu o desenvolvedor Jon Fuller, "todo mundo tem e-mail", e ninguém quer criar conta e baixar outro aplicativo para cada ideia nova. O e-mail oferecia menos compromisso para o usuário e menos trabalho de construção para o desenvolvedor.

Netlib: uma App Store por e-mail em 1985

A ideia de usar comunicação para comandar máquinas é antiga: o telégrafo já era usado para sinalização automatizada de trens antes mesmo da primeira mensagem de Morse. O e-mail, criado em 1971, herdou essa lógica ao oferecer identidade e uma forma livre de enviar dados a um servidor que soubesse ler, processar e responder.

O exemplo central é o Netlib, criado em 1985 por Jack Dongarra (posteriormente professor no Tennessee e ganhador do Turing Award) e Eric Grosse (depois VP de Segurança e Privacidade do Google), para distribuir software matemático gratuitamente à comunidade científica, que não tinha acesso fácil a fitas magnéticas nem repositório central. O usuário enviava comandos como "send dqag from quadpack" para um endereço com separação por pontos de exclamação (antes do DNS chegar ao e-mail); o servidor respondia em 5 ou 10 minutos, tipicamente. O sistema filtrava pedidos humanos acidentais - "recebemos pedidos como 'por favor, mande o índice' de pessoas que não percebem que estão falando com um programa", escreveu a equipe. Dois anos após o lançamento, o Netlib processava quase 4.000 downloads por mês. A equipe justificou a escolha em 1987: o e-mail era "o único serviço de comunicação de dados onipresente".

A difusão da ideia

O conceito se espalhou: FTPmail para baixar arquivos por e-mail nos anos 1990, MCI Mail enviando fax em 1993, a RFC 1486 tentando padronizar impressão por e-mail (ainda viva em HP ePrint), o Ringo recomendando música em 1994, e o IMDb, que segundo o fundador Alan Jay "era todo feito por e-mail", com consultas como "title: Casablanca". Já nos anos 2000, o e-mail seguiu como recurso: Remember the Milk convertia e-mails em tarefas em 2005; Trello e Todoist oferecem endereços por projeto; I Done This envia e-mails diários para registro de realizações; Instapaper e Kindle aceitam conteúdo por e-mail; Readwise cria endereços que levam newsletters direto à lista de leitura; Posterious publicava posts por e-mail, ideia que sobrevive no WordPress.com e no Magic Email Address do Buttondown. Integrações via Zapier, Make ou IFTTT permitem criar as próprias conexões.

E-mail como identidade

Além de interface, o e-mail funciona como passaporte universal de identificação. O Netlib já usava logs de acesso para notificar por e-mail correções de bugs - o autor compara isso às atualizações automáticas da App Store, décadas antes. No Japão, o Karamail (空メール, "e-mail em branco") permite cadastro enviando uma mensagem vazia, recebendo de volta um link de login. Hoje, magic links de login, adotados pelo Slack e outros, e newsletters como padrão de publicação de escritores mostram que vivemos parcialmente nesse mundo centrado no e-mail.

Conclusão

Guay sugere, sem afirmar categoricamente, que talvez o e-mail sempre tenha sido uma das melhores formas de comunicar-se com computadores e pessoas ao mesmo tempo - uma interface sem necessidade de aplicativo, login ou suporte a múltiplas plataformas.