
Enshittification: o que parece declínio pode ser evolução
Ruby Justice Thelot, professor da NYU, sustenta que a 'enshittification' - conceito criado por Cory Doctorow em 2022 para descrever como plataformas pioram progressivamente em favor de objetivos comerciais até morrer - não descreve a realidade. Para ele, o fenômeno é antes 'narcisismo de plataforma': a expectativa de que as plataformas continuem atendendo às necessidades específicas de seus primeiros usuários.
Os dados de uso e satisfação contrariam o declínio
O argumento central é comportamental. Entre 2016 e hoje, o número de usuários de redes sociais saltou de 2,5 bilhões para quase 6 bilhões, crescimento de 140% em dez anos em usuários ativos mensais. No Instagram, o tempo médio diário de uso também aumenta ano a ano. Além disso, pesquisas de satisfação como o ACSI indicam estabilidade nos últimos oito anos, com leve alta entre 2020 e 2025, de 70 para 75 (em 100) - e, decomposta por plataforma, a satisfação aumenta em todas. Thelot destaca que esse caso é incomum: normalmente se espera divergência entre preferência declarada e revelada, mas aqui ambas cresceram. Para ele, uma plataforma realmente desalinhada conseguiria prender a base atual, mas falharia em atrair novos usuários, e os grandes serviços continuam gratuitos.
Plataformas mudam porque a base de usuários muda
A segunda linha de argumento é evolutiva. O Facebook começou atendendo um grupo restrito - universitários e jovens urbanos - e sua linha do tempo de mudanças (fim do Wall em 2011, News Feed em 2006, botão Like em 2009, algoritmo de engajamento em 2009, Timeline em 2011, Story Bumping em 2013, priorização de amigos sobre páginas de marcas em 2015) mostra a adaptação a um público cada vez maior e mais global. Conforme a base cresce, multiplicam-se as personas e os objetivos de uso, e o trabalho dos gerentes de produto fica mais difícil. O Instagram, por exemplo, deixou de ser puramente 'social' e virou fonte de entretenimento e de coordenação social - eventos, clubes de leitura e concertos usam o recurso de canais para comunicar atualizações.
Decisões de produto e preferência revelada
O terceiro argumento é pragmático: numa empresa como a Meta, as plataformas resultam de milhares de pequenas decisões guiadas por dados. A empresa raramente reverte mudanças criticadas - Stories, Reels, feeds algorítmicos, recomendações, anúncios e compras - e deixa os números decidirem. A preferência revelada mostra que os usuários continuam usando, embora não sejam obrigados. Para Thelot, 'eu odeio isso' não equivale a 'os usuários odeiam isso'; dizer que 'todo mundo que conheço odeia' costuma significar que o próprio grupo deixou de ser a persona central da plataforma - a desconexão sente-se mais entre millennials 'geriátricos' e a classe midiática, muito presentes online, enquanto o usuário médio do Instagram tem cerca de 675 seguidores e não vive esse problema.
Por que o discurso de decadência faz sucesso
A pergunta final não é por que as plataformas mudam, mas por que a linguagem de decadência é tão emocionalmente satisfatória. Thelot identifica uma dissonância cognitiva: críticos continuam usando intensamente as plataformas que dizem odiar. O termo 'enshittification' ofereceria uma absolvição - transfere a agência para a plataforma, retratando os usuários como presos contra a vontade e permitindo o uso performativo e meio relutante, transferindo a culpa. Críticos como Doctorow cumpririam um 'serviço psíquico', convertendo essa angústia em visualizações e vendas de livros.
Conclusão
Thelot conclui que as plataformas não estão piores: elas evoluem, como um restaurante que retira um prato do cardápio. Quem não gostar pode desinstalar e seguir em frente - 'vote com os polegares'. Nos comentários, leitores contestam a tese, apontando que o autor escolheu casos gratuitos (Facebook e Instagram) e ignorou o aumento da publicidade e de cobranças em outros setores.