
Zuckerberg via 'redução de 60%' como caminho para Meta pós-IA
O plano revelado pela Reuters
Segundo reportagem da Reuters comentada por Gergely Orosz no The Pragmatic Engineer, a Meta formulou em janeiro, durante um retiro de liderança no Havaí, um plano chamado Project OT (Organization Transformation) para se tornar uma empresa "nativa de IA". O documento interno previa reduzir muitas equipes em até 60% por meio de demissões e realocações, apoiado na suposição de que times menores e "densos em talento", de 3 a 5 pessoas, poderiam fazer o trabalho de grupos de 10 a 20 com ajuda de IA.
O RH da Meta projetava que o corte seria maior que o de 2022-2023, quando 25% do quadro foi demitido, com duas ondas: uma em maio e outra em novembro. O autor estima que uma demissão de 30-40% de toda a empresa estava em planejamento. Na noite de 19 de maio, horas antes da primeira onda, Zuckerberg recuou parcialmente: a Meta demitiu cerca de 10% no dia seguinte, mas cancelou o planejamento dos cortes de novembro. Na época, funcionários estavam em rebelião aberta, convencidos de que as iniciativas de IA visavam substituí-los - e, segundo a reportagem, estavam certos.
Antes disso, a empresa já havia demitido 10% dos engenheiros em maio e realocado outros 20-30% das equipes de infraestrutura e produto para rotulagem de dados no treinamento de IA, o que resultou em moral baixa, perda de conhecimento de domínio crítico e uma série de interrupções constrangedoras, incluindo um incidente no Instagram em que qualquer conta - inclusive a de Barack Obama - podia ser tomada apenas pedindo ao bot de IA que trocasse o e-mail associado.
De onde veio a inspiração
Executivos como o Chief Data Officer Alex Schultz e a Head of Product Naomi Gleit visitaram a Ásia no ano anterior e admiraram startups que estruturaram seus organogramas em torno da IA. Em fevereiro, a Meta experimentou "cápsulas nativas de IA".
O autor concede que times menores em startups fazem sentido, mas observa a diferença: empresas nativas de IA crescem menores organicamente, sem demissões em massa. A Meta queria encolher de forma brutal e súbita, em um ano, ignorando os custos. Times de 3-5 pessoas enfrentam perda de conhecimento de domínio, falta de redundância, escalas de plantão inviáveis (que exigiriam 6+ engenheiros), ausência de "tempo ocioso" para inovação, menos crescimento profissional e menos oportunidades de desenvolver bom julgamento.
Por que a pressa?
A Meta registrava receita e lucros recordes e não sofria pressão externa para mudar. A hipótese do autor: Zuckerberg temeria ser superado por uma startup, como o Facebook fez com o Myspace, que perdeu mais de 40 milhões de visitantes únicos mensais em três anos por falha de execução. Como contraponto, a Meta é a décima maior empresa de capital aberto do mundo, avaliada em US$ 1,4 trilhão, com receita anual de US$ 228 bilhões e lucro de US$ 68 bilhões. Ainda assim, a Anthropic, com cinco anos e um vigésimo do efetivo da Meta, pode abrir capital em outubro com avaliação próxima de US$ 2 trilhões - e cada minuto gasto com um chatbot é tempo não gasto no Instagram, Facebook ou WhatsApp. Nesse contexto, a realocação de engenheiros para treinar o modelo Muse Spark, que segundo o autor fica atrás de GPT-5.6 e Opus 5, mas à frente dos modelos do Google, faria parte da estratégia.
Consequências internas e sociais
O autor argumenta que demissões desse porte tratam engenharia como centro de custo, criam uma cultura de mercenários em que as pessoas ficam pelo dinheiro até a próxima onda de cortes e expulsam justamente os melhores funcionários - como já ocorrido na "onda de demissões voluntárias" após os cortes de maio. Externamente, cortes massivos por IA poderiam atrair regulação: proteções trabalhistas específicas, tributação de lucros de empresas que substituem funcionários ou cobrança sobre venda de tokens. A situação seria pior agora que a Meta perdeu uma ação nos EUA sobre danos a crianças, com multa de US$ 18 bilhões, e se comprometeu a tornar suas plataformas menos viciantes.
Conclusão
Para o autor, a soma da demissão de 25% em 2022-2023, a recontratação que devolveu o efetivo ao nível de 2022 e o plano de substituir desenvolvedores por IA sem pressão evidente reforça a impressão de que não há "adultos" comandando a Meta desde a saída de Sheryl Sandberg em 2022. Ele conclui que a empresa passou a tratar colegas com desdém, e que engenheiros com outras opções teriam poucos motivos para escolher trabalhar lá.