
IA corrói a confiança no open source
A troca: da generosidade à suspeita
Para Erlend Sogge Heggen, criar software livre costumava ser um dos atos menos controversos possíveis: o pior cenário era que ninguém se importasse, e bastava uma pessoa demonstrar interesse para que surgisse conexão e comunidade. Compartilhar era cuidar - do próprio desenvolvimento, do disfrute de quem recebia e da qualidade do código.
Hoje, segundo o autor, todo ato de doar é tratado com desconfiança. Quem recebe software gratuito quer saber como aquele trabalho foi produzido: se é "puro" ou se saiu de "maquinária suja", isto é, se foi feito com IA. Alguns destinatários irritados não apenas ignoram quem doa - atacam o doador com o fervor de quem teria sido atacado pela própria oferta voluntária. Heggen reconhece que a raiva tem fundamento, mas argumenta que o alvo está tragicamente equivocado, e que essa dinâmica está rompendo a comunidade de desenvolvedores justamente quando a solidariedade seria a única forma de a tecnologia voltar a ser controlada por quem a constrói.
Não há como escapar
O autor sustenta que as tecnologias com que se constrói mais tecnologia são escolhidas principalmente para os desenvolvedores, não por eles. A indústria de ferramentas de desenvolvimento, segundo ele, é das mais eficientes em fabricar demanda: quando o mundo corporativo quer adotar uma tecnologia, mobiliza marketers e profissionais de DevRel para tornar a novidade algo autoevidente - "a peça que faltava". Heggen admite que duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: a novidade não teria se consolidado sem forte apoio financeiro, mas também era uma boa tecnologia com utilidade real.
Desenvolvedores prezam pela autonomia e julgam rapidamente colegas que não exercem sua agência - não largar a empresa ruim, não abandonar o framework defasado. Mas o autor lembra que devs operam sob as mesmas leis econômicas que o resto da classe trabalhadora, e muitos descobriram nos últimos anos quão pouco poder têm para se proteger quando o mercado de emprego encolhe. Recusar-se a usar React porque "não combina com minhas sensibilidades" deixou de ser posição viável, assim como os artesãos tecelões não podiam recusar emprego na fábrica.
Com a IA seria o mesmo. Houve adotantes precoces entusiasmados, mas muito mais gente aderiu relutantemente porque a indústria decidiu que "é assim que se faz agora". Muitos, sugere Heggen, talvez acreditem que foram adotantes voluntários, mas seria uma narrativa que contam a si mesmos enquanto se agarram a um senso minguante de agência sobre seu ofício. Quem conseguiu ficar de fora é um dos poucos privilegiados que a marcha impiedosa da indústria ainda não recrutou - e o autor pede compaixão, pois todos sabem de seu aprisionamento e buscam sair dele como podem.
A IA corrói a confiança
Autodenominado "assistente social do open source", Heggen afirma que o maior custo da IA é a erosão da confiança entre praticantes de software aberto. A IA teria revirado a economia de presentes da comunidade, transformando desenvolvedores bem-intencionados uns contra os outros numa espécie de guerra civil fria repleta de "jogos de espionagem".
Segundo ele, ninguém está seguro: falar sobre uso de IA em um projeto paralelo pode levar ao isolamento pela comunidade; criticar a IA pode custar o emprego. Praticar software aberto agora exige cautela constante - cada declaração sobre software precisa vir acompanhada de posicionamento, declaração de alinhamento ou ambivalência inofensiva. A comunidade que ele viu crescer, segundo o autor, "está se devorando por dentro". O sofrimento é tal que a cada poucas semanas surge um anúncio de que um colega querido está deixando a área de tecnologia para preservar a saúde mental - imagem que ele compara à de um velho cansado lendo obituários de conhecidos do bairro, perguntando-se quanto tempo falta para se juntar a eles.
Heggen conclui que, não sabe quanto tempo resta à sua carreira em declínio, mas decidiu não desperdiçá-lo sendo julgador e irritado com colegas criadores de bens públicos: feita em fábrica ou não, é grato por todo presente que recebe.