
Sou o único esquisitão da empresa? O mito do consenso no trabalho
A sensação de ser o "esquisitão"
Sentir que poucas pessoas na empresa entendem de verdade o seu jeito de trabalhar é comum - e muitas vezes decorre de uma leitura equivocada. Em conferências, surgem afinidades; de volta ao trabalho, a estranheza retorna. A tese: você pode estar menos sozinho do que pensa. O erro típico é supor que, como a organização tem certas regras e algumas pessoas de alta visibilidade se comportam de determinado modo - com todos aparentemente concordando -, não há muitos como você por lá.
Três camadas sob o comportamento visível
Organizações podem ser mais diversas em crenças do que aparentam em comportamento. O que se enxerga não é simplesmente "o que as pessoas daqui acreditam", mas pelo menos três coisas sobrepostas:
- Normas com peso de poder: algumas formas de se comportar carregam muito mais força e consequência institucional do que outras.
- Adaptação ao ambiente: o que cada um diz, silencia, enfatiza, tolera e evita para operar com eficácia dentro dele.
- As pessoas de verdade: que podem guardar um leque bem mais amplo de crenças, valores, preferências e ideias sobre como o trabalho deveria funcionar.
O ponto-chave: observamos principalmente a adaptação, atribuímos o comportamento às pessoas em si e subestimamos a influência das normas. Líderes moldam o que é recompensado, promovido, tolerado e interpretado como "material de liderança" e "bom desempenho". Essa adaptação visível pode então parecer concordância generalizada com as normas.
O ciclo de reforço e a diferença entre adaptar e endossar
O mecanismo cria um ciclo de reforço: ver os outros agindo conforme a norma aparente torna razoável inferir que acreditam nela, e a própria adaptação vira mais um dado na mesma direção. Um conjunto relativamente estreito de normas passa a parecer "o que todo mundo aqui acredita".
Mas adaptação não é endosso. As pessoas têm razões distintas e vão a graus variados para desempenhar o papel que o trabalho exige: podem buscar pertencimento, segurança, ambição, profissionalismo, coordenação ou simplesmente conseguir passar pelo dia. É fácil ler isso como falta de autenticidade, mas o comportamento é o que fica visível.
Líderes também se adaptam - a expectativas de cima, de pares, de conselhos, investidores e clientes, e a ideias herdadas sobre como a liderança deve parecer. Ser recompensado por se comportar conforme uma norma não significa que ela reflita a preferência natural da pessoa, nem mesmo o que ela acredita em privado.
O que precisa se alinhar para as crenças aparecerem
Para que certas crenças se revelem no trabalho, várias condições precisam se encaixar. Parte é sorte: encontrar a pessoa certa no cenário certo. Parte é tempo: o bastante para criar confiança e conhecer as perspectivas do outro. Parte é contexto: a conversa, o problema, a relação ou o momento certo precisa abrir espaço para essa parte da pessoa surgir. Não é raro uma equipe levar trimestres - ou anos - até entender o porquê de determinada mania de um colega.
Mídias sociais amplificam o mesmo efeito
As redes sociais produzem uma normalização parecida: um subconjunto pequeno, porém muito visível, pode fazer certas crenças e comportamentos parecerem bem mais comuns do que são. Observa-se o que vem à tona, confunde-se visibilidade com prevalência e ajusta-se o comportamento; algumas normas simplesmente parecem mais seguras de seguir publicamente do que outras.
O LinkedIn é o caso mais interessante, porque ali, em muitos aspectos, ainda se está no trabalho: a pessoa fica exposta a colegas, gestores, clientes, futuros empregadores e pares profissionais. O que é expresso é moldado não só pelo que se acredita, mas pelo que parece profissionalmente aceitável, recompensado e de baixo risco. Isso pode tornar um conjunto estreito de crenças "seguras" de ambiente de trabalho ainda mais universal do que realmente é.
Conclusão: mais "esquisitões" do que se imagina
Encontra-se apenas uma amostra mínima do que as pessoas ao redor pensam e acreditam, e é muito fácil confundir o que foi revelado com tudo o que existe. Pode haver muito mais "esquisitões" por perto do que se percebe. É normal conhecer um ou dois colegas de confiança que realmente entendem você - mas não se pode deixar que isso convença de que eles são os únicos.