
Adoção de IA em times de produto exige governança e colaboração
De táticas isoladas a estratégias em construção
Em 2025, a dissertação de mestrado da autora investigou o impacto da IA na colaboração entre design e desenvolvimento, com entrevistas com designers e desenvolvedores de várias senioridades, um levantamento próprio e a leitura do relatório de IA da Figma. A conclusão: as empresas sabiam que a IA importava e que os funcionários já a usavam, mas quase nenhuma criava estratégias reais de adoção, apenas iniciativas pontuais - em alguns casos, a IA era proibida por confidencialidade, segurança ou apenas "porque sim".
Ao revisitar o achado no evento UXDX EMEA, em Berlim, ela usa a terminologia da Gartner: a discussão parece ter passado do "pico das expectativas infladas" para o "vale da desilusão". Se em 2025 as ferramentas eram distribuídas por hype, FOMO e falta de perspectiva, em 2026 o retorno sobre investimento, os riscos de segurança e os atritos de fluxo forçam as empresas a amadurecer - da adoção individual e caótica para estratégia coletiva e governança compartilhada. Ainda assim, ela ouviu relatos de times em que nada mudou e de times em que quase tudo mudou.
Estratégia ausente, pressão presente
Na N26, Marcus Knight diz que a única diretriz da empresa era "todo mundo precisa usar IA", sem orientação sobre como. Daí surgiu uma skill do Claude Code apelidada de Sheldon, modelada nas perguntas que seu engenheiro sênior fazia a cada entrega, para checar se o arquivo de design está pronto antes de um engenheiro abri-lo - uma tentativa de "clonar" o colega crítico, que já economizou tempo e destravou obstáculos. Ele lamenta, porém, que a empresa não tenha ido além do incentivo.
O relatório AI in Design 2026, do Designer Fund com a Foundation Capital, quantifica a lacuna: 73% dos designers sentem pressão crescente de entrega, qualidade e velocidade, mas só 28% dos líderes entrevistados dizem que a empresa fez alguma atualização formal para acompanhar. Além disso, 87% dos designers relatam ao menos apoio organizacional moderado à adoção; em 2025, startups iniciais tinham o dobro da chance de adotar ferramentas de IA que empresas maiores, e hoje 60% das empresas em estágio inicial e de crescimento relatam apoio forte. As empresas sem nenhum investimento em IA caíram de 15% para 4% entre 2024 e 2026.
Perfis de adoção e dois casos
O relatório de 2026 da Figma divide as empresas em quatro perfis; nas "empresas diretivas" (27%), o uso de IA é ditado de cima para baixo. Ali, o impacto na produtividade mais que dobrou, em ferramentas quase dobrou e na colaboração quase triplicou - os maiores ganhos entre os perfis -, mas demorou mais a aparecer, pois os times implementaram as diretrizes por conta própria.
A Fin (ex-Intercom, depois adquirida pela Salesforce) fez um pivô completo: abaixo da média do mercado em agosto de 2022, reconstruiu estratégia, organização e nome em torno de IA quando esta passou a permitir clonar quase qualquer produto SaaS em um ou dois dias. "A única coisa que mudou é absolutamente tudo", disse o cofundador Des Traynor. Hoje são US$ 400 milhões de receita, US$ 100 milhões só da Fin, seu agente de IA; o processo levou cerca de dois anos e meio e não foi simples nem direto. A Amplitude, por sua vez, fechou uma semana para os 700 funcionários construírem e testarem com IA; hoje 97,5% usam Claude no dia a dia e mais de 550 usam o Lovable.
Fronteiras de papel e colaboração em disputa
Na Fin, todo designer precisa entregar algo em produção. Segundo a Figma, 56% dos não-designers já fazem algum trabalho de design, e 65% dos designers assumem mais responsabilidades de produto ou engenharia, segundo o AI in Design 2026. Rory Madden prevê times de 2 ou 3 pessoas multifuncionais em vez de 8 a 10 especialistas, porque cada pessoa extra acrescenta coordenação. O saldo é ambíguo: um terço dos respondentes descreve papéis mais confusos e a fatia que relata colaboração reduzida quadruplicou em um ano, de 5% para 20% - o que pode refletir mais trabalho solo e menos troca ao vivo -, enquanto os relatos de impacto positivo da IA na forma de trabalhar em equipe cresceram 6 vezes em dois anos.
No painel do UXDX sobre quem deveria estar mais nervoso, a resposta foi todos; Pamela Mead, do SumUp, afirmou que o design é o mais atingido e precisa retomar raízes estratégicas, o que exige conhecimento, experiência e confiança mútua. A Figma indica que designers que abraçam a IA têm 25% mais chance de se dizerem mais felizes no trabalho; já uma pesquisa de 2026 da Lenny's Newsletter aponta mais ansiedade relacionada à IA e os gerentes pior avaliados entre papéis de tecnologia.
Em 2025, 77% dos designers da pesquisa da autora diziam que a IA os tornava individualmente mais rápidos, mas quase nenhum relatava mudança na colaboração com desenvolvedores. Um ano depois, o efeito é sentido, para melhor ou para pior conforme o time, e a conversa saiu da conscientização para a construção. Se isso se mantém no próximo ano, ela não sabe - nem ninguém com quem falou -, mas é nesta fase, empresa por empresa e time por time, que as decisões reais são tomadas.