
Planetary Design tira o humano do centro do processo de design
Planetary Design amplia o quadro
O ponto de partida é um workshop de Satu Miettinen sobre Planetary Design for Services, em Singapura, em 2026, que levou o autor, Sheng-Hung Lee, a perguntar o que acontece com o design quando os humanos deixam de ser o único ponto de referência. Miettinen observou que, com a IA integrando sistemas de serviço e desafios planetários redefinindo prioridades, designers assumem papel mais estratégico, conectando valores humanos, tecnologia e futuros regenerativos. O futuro do design de serviços não seria apenas centrado no humano, mas sistêmico, centrado na vida e orientado ao futuro.
O autor relaciona Planetary Design e Design for Longevity (D4L), sua exploração de como longevidade se cruza com serviços, sistemas, tecnologia e sociedade. Ambos convidam a olhar além das necessidades imediatas e a considerar as condições sociais e planetárias que moldam a vida.
A Doughnut Economics como bússola
A economista Kate Raworth propõe a Doughnut Economics, cuja estrutura visual mostra que o florescimento humano depende de se manter entre uma fundação social e um teto ecológico. A fronteira interna representa 12 dimensões de necessidades humanas fundamentais, como alimentação, saúde e equidade social. A externa representa os limites planetários que a atividade humana não deveria ultrapassar. Juntas, definem o "espaço seguro e justo para a humanidade".
Para designers, a pergunta muda: não basta saber se uma intervenção atende a uma necessidade humana ou social; é preciso perguntar quais sistemas ecológicos, infraestruturais e institucionais a tornam possível e que consequências ela pode gerar em outros lugares ou mais tarde.
Três deslocamentos e o poder
O autor identifica três mudanças: de usuários individuais para sistemas interconectados; de necessidades imediatas para consequências de longo prazo; e de stakeholders humanos para relações entre humanos e não humanos. Atravessando todas, está o poder - quem define problemas, molda decisões, aloca recursos e determina quais necessidades são priorizadas.
Daí, três proposições: o Planetary Design não substitui o design centrado no humano, mas expande o quadro para sistemas sociais, tecnológicos, institucionais e ecológicos; artefatos podem tornar visíveis relações, trade-offs e perspectivas não humanas; e a educação em design deve preparar futuros designers para transitar por escalas e horizontes temporais.
TetraPOT e os stakeholders não humanos
Um exemplo é o TetraPOT, projeto do autor com Wan Kee Lee em 2016, quando trabalhava na IDEO. O conceito reimagina quebra-mares de concreto como estruturas que apoiam o crescimento de manguezais. O TetraPOT oferece ambiente protegido para mudas jovens enquanto segue quebrando ondas. Com o tempo, as raízes podem se estender e potencialmente formar um sistema ecológico mais conectado.
O projeto sugere que a infraestrutura não seja só barreira, mas estrutura que participa de processos ecológicos. Isso amplia quem - ou o que - é reconhecido como stakeholder: manguezais, organismos marinhos, sedimentos e água também podem ser entendidos como participantes cujas necessidades e relações deveriam informar decisões de design.
Artefatos, rituais e educação
O autor expande a noção de artefato para além de objetos físicos, incluindo rituais que estruturam conversas e tornam relações visíveis. Cita o "flight system" da IDEO, com conversas de pré-voo, meio-voo e pós-voo, e imagina um "planetary flight system" para refletir periodicamente sobre considerações sociais e ecológicas. Isso exigiria trazer diferentes formas de conhecimento - experiência comunitária, pesquisa qualitativa, dados ambientais, políticas, evidências científicas - e questionar a autoridade por trás dele. O designer não precisa ser especialista em tudo, mas criar condições para comparar e traduzir múltiplas expertises em decisões.
Na educação, o autor cita Ezio Manzini e a distinção entre design difuso e especializado. No outono de 2026, ele oferece na Universidade de Michigan o curso "Design for Longevity Across Scale: Product, Service, and City" (UT402), em colaboração com o Dexter Senior Center. Com orçamento limitado, os alunos traduzem pesquisa comunitária em protótipos, usando o D4L Toolkit, e mapeiam o ecossistema ao redor dos idosos, incluindo funcionários do centro, agências como Meals on Wheels, familiares, infraestrutura, transporte, políticas e condições ambientais.
A conclusão é que projetar para a longevidade sob uma lente planetária significa reconhecer que vidas mais longas e significativas dependem não apenas de melhores produtos, serviços e cidades, mas dos sistemas sociais, ecológicos e infraestruturais que as tornam possíveis.