
IA torna a gestão de produto fraca mais rápida e difícil de detectar
David Pereira escreveu em 2021 uma lista de sete sinais de gestão de produto fraca para se flagrar antes de escorregar neles. Ao revisá-la, sua avaliação é de que os sinais continuam atuais e mais presentes, porque hoje basta um prompt para obter algo entregável. Esse algo pode ser vazio, mas se parece com progresso. O que mudou, diz, não foram os sinais, e sim o custo de ignorá-los.
De lenta e dolorosa a rápida e confortável
Em 2021, a gestão de produto fraca era lenta e penosa: sentia-se nos refinamentos intermináveis e nas entregas atrasadas. Em 2026, ela é rápida e confortável, feita um prompt de cada vez, com aparência de progresso. As conversas sobre Kanban, Scrum, Scrumban e Shape Up perderam espaço para a pergunta "quanto de IA você usa?", que ele considera errada, mas eficaz para conquistar o emprego novo ou a promoção.
Solução antes do problema, entrega antes do resultado
O primeiro sinal é construir soluções sem nomear o problema. Se em 2021 roadmaps, backlogs e refinamentos ignoravam o problema por trás das soluções, em 2026 a entrega ficou tão fácil que pessoas montam ferramentas próprias em um fim de semana e ainda têm dificuldade de dizer qual problema resolvem. A capacidade de produzir soluções melhorou; a de entender problemas, não. Ao pedir enunciados de problema, ele recebe reações de impaciência.
O segundo sinal é começar as conversas pela entrega e não pelo resultado. Depois de cinco anos, centenas de palestras e um livro, a primeira pergunta da maioria das reuniões continua sendo "o que vamos construir em seguida?", e não "que impacto queremos criar?". As ferramentas mudaram; o comportamento, não.
Roadmap sem metas e features imortais
O terceiro sinal é o roadmap sem metas, agora com um item padrão: IA. Em uma conferência com 300 pessoas, cerca de 9 em cada 10 levantaram a mão ao serem perguntados se tinham IA no roadmap; quando ele pediu que mantivessem a mão no ar os que acreditavam que aquilo era o certo naquele momento, ao menos metade baixou. Para ele, a culpa não é das pessoas, que muitas vezes se calam para manter o emprego, mas dos sistemas; metas seguem ausentes.
O quarto sinal são as features imortais. Ele pergunta, em 30 países desde 2021, quando foi a última vez que alguém aposentou uma funcionalidade, e quase nunca ouve um sim. Publica-se sem medir o resultado e o produto se complica, sob pressão de cima. Em 2026, acrescenta-se funcionalidade mais rápido do que nunca a produtos que nunca são limpos.
Desejos de stakeholders e certeza no lugar da premissa
O quinto sinal ficou mais complexo: stakeholders também entregam e aparecem com protótipos prontos, perguntando se o time pode apenas "dar um polimento". Ao mesmo tempo, fala-se menos com clientes e mais com usuários sintéticos. Ele não é contra usuários sintéticos, mas sustenta que se limitar a um único ponto de dados era ruim em 2021 e continua ruim, por mais articulado que ele seja.
O sexto sinal é a certeza no lugar da premissa. Em 2021, a autoconfiança levava a construir sem validar; agora, modelos de linguagem confirmam premissas mais rápido. Ele pediu ao ChatGPT uma estratégia para vender salsichas na Lua, como oceano azul, e recebeu um plano confiante, além da sugestão de que não estava abrindo um negócio, mas uma revolução. Para ele, o pensamento crítico é de quem responde pelo resultado, não da IA, e premissas devem ser checadas contra a realidade. Ressalva que nem todos os modelos são iguais, citando o Claude como mais crítico e o ChatGPT como mais positivo.
Dois motoristas no mesmo ônibus
O sétimo sinal, o que mais se transformou, era a separação entre product owner e product manager, para ele um ônibus com dois motoristas. Ele não desapareceu, mas mudou: os papéis se embaralharam, PMs programam e desenham, designers e engenheiros tomam decisões de produto e entregam valor. A confusão entre PO e PM persiste em organizações mais rígidas, mas diminui. O risco é trocar dois motoristas por um ônibus em que todos têm a mão no volante: papéis difusos podem ser um ganho, desde que alguém seja dono da direção de ponta a ponta. Títulos importam menos; a direção vence a velocidade, e alguém precisa responder para onde se vai e por quê.