
Programar pelo prazer ainda faz sentido com IA mais rápida, diz texto
Em um ensaio pessoal, um desenvolvedor de software e criador de jogos relata uma crise recente de motivação. Ele descreve o episódio como uma implosão, não como uma explosão dramática: sua determinação e vontade se desfizeram. O motivo, diz, é familiar a quem trabalha em áreas criativas: a IA generativa e a desvalorização contínua do trabalho de artistas e criadores, que seriam mastigados e regurgitados de volta por um modelo de assinatura.
Artes e programação
O autor afirma ter esperança em relação a amigos de outras áreas artísticas. Para ele, arte feita com IA é ruim, antiarte por definição, embaraçosa de ver e constrangedora de associar. Ele espera que isso continue. Na programação, porém, onde atua principalmente, a situação lhe parece mais incerta. Segundo relata, todo programador que conhece enlouqueceu de certo modo nos últimos anos. É o período mais turbulento que se lembra para um engenheiro de software. A profissão vinha sendo relativamente fácil, mas cresceu a sensação de que todo o ofício passa por uma mudança enorme e cada pessoa precisa decidir como responder, algo difícil sem o benefício da retrospectiva. Ele não culpa quem apenas acompanha as mudanças, apesar das externalidades negativas: a pressão dos pares é real e os LLMs são genuinamente muito capazes de gerar código hoje. Negar isso, escreve, é correr contra uma linha de chegada móvel.
Sua posição
Mesmo deixando de lado questões ambientais e sociais, o autor diz que simplesmente não gosta de programar com assistente de código. Não é divertido para ele, o resultado não parece seu e ele não sente orgulho do que é produzido. Nos últimos anos, não era difícil ficar na dele, mexendo em pequenos projetos, mas cada vez mais sente que muito do ofício que transformou em carreira e hobby desapareceu. Ele gosta de fazer pequenos utilitários e scripts. Usa diariamente um seletor interativo de branches do git de que se orgulhava e pelo qual colegas o elogiaram. Agora, qualquer pessoa pode pedir aquela ferramenta ou algo parecido por um prompt. Ninguém mais se importa com seus pequenos utilitários, diz. Admite que precisa do reconhecimento dos pares para se sentir realizado.
Jogos e a conversa com Shad
Isso também acontece nos jogos. A crise da semana foi provocada por uma thread de Zach Gage sobre a criação de jogos estar se aproximando da música. O autor considera a percepção boa, mas devastadora. Passou anos aprendendo a fazer jogos, foi difícil, e agora sente que talvez tenha sido perda de tempo. Depois, conversou com Shad, designer e engenheiro talentoso, que desenvolve o Uncamera, um aplicativo de câmera para iOS que usa saída bruta do sensor com tabelas de consulta, em vez de filtro posterior, para produzir fotos que parecem de filme. O autor o considera belamente feito e possível concorrente ao Apple Design Award quando estiver pronto. O aplicativo é desenvolvido inteiramente sem IA generativa. Shad teria razões semelhantes: falta de alegria ou realização no processo, e ansiedades parecidas. A diferença é que Shad continuou atualizando o Uncamera apesar dessas ansiedades, enquanto o autor se entregou à autopiedade.
Três caminhos
O autor percebe que já faz tudo do jeito difícil. Decidiu criar seu próprio motor de jogos, em C++, porque queria. Se o objetivo fosse fazer jogos o mais rápido possível para competir, usaria Unity, Godot ou Unreal. Não estaria tentando produzir um renderizador pseudo-3D. Ele faz as coisas assim porque gosta e aprende muito com o processo. Com a conversa, conclui que há três caminhos: começar a usar IA generativa para sentir que acompanha ou compete, mas sem aproveitar o trabalho; parar de criar, o que, para uma pessoa criativa, nunca é realmente uma opção; ou continuar criando do jeito que gosta, aprendendo e fazendo do modo difícil, sem motivo concreto além de querer. É por isso que se fazem jogos, e é por isso que se faz qualquer coisa. O texto termina defendendo continuar criando diante da desvalorização criativa.