
Visão da China sobre a IA americana fica mais cínica
O post viral de um pesquisador da DeepSeek
Em 13 de setembro de 2026, após o lançamento do DeepSeek V4.1-Flash, o pesquisador Liu Shengyu, especialista em kernels, publicou um texto que viralizou. Ele argumenta que a sociedade futura pode tender a dois extremos: um comunismo de forças produtivas liberadas ou um cenário tipo Cyberpunk 2077, em que poucas empresas controlam recursos e o acesso à IA avançada. Liu admite que em seis meses a um ano a IA provavelmente escreverá kernels tão bons quanto ou melhores que os seus, mas diz continuar trabalhando porque a dinâmica de corrida não dá alternativa - se ele parasse, outras empresas seguiriam e seu ofício seria destruído do mesmo jeito.
A parte mais explosiva do texto é o ataque a Anthropic: Liu escreve que não confiaria em Anthropic ou OpenAI para fornecer inteligência de fronteira de forma aberta e barata, e compara deixar Anthropic controlar a IA mais avançada a "entregar a bomba atômica a Hitler antes dos Aliados". O texto segue no ar no WeChat, recebeu cobertura simpática de veículos como Huxiu, 36Kr e a estatal Yicai, e a reação em Zhihu e Xiaohongshu é majoritariamente favorável - comentários tratam alertas de risco de IA como alarmismo e chamam Anthropic de "tecno-fascista". A autora nota que a comparação com Hitler é abominável, mas provavelmente vista por Liu como resposta às acusações maximalistas de Dario Amodei contra o sistema chinês.
Duas leituras incomensuráveis do mesmo discurso
Irene Zhang relata uma conversa nas margens do ICML em Seul, na qual um profissional chinês ficou perplexo ao ouvir a visão de Amodei: democracia liberal mais AGI deveria significar domínio ocidental e controles de exportação. A sinceridade desse discurso, explica a autora, nasce do altruísmo eficaz e da ambição ideológica de Washington. Intérpretes chineses, acostumados a uma visão conspiratória herdada das décadas maoístas, filtram essas declarações buscando interesses ocultos e enxergam uma trama coordenada anti-China - e por isso não percebem as convicções genuínas e os conflitos internos do lado americano. Tecnólogos chineses, criados num ambiente internacionalista, descobrem que alguns americanos se veem numa nova Guerra Fria, e sua reação é furiosa e cada vez mais radical.
A linha do Estado: segurança acima de tudo e a retórica do "em nome de"
Em 12 de setembro, Chen Yixin, ministro da Segurança do Estado, publicou artigo na revista 中国网信 (Cyberspace Administration) afirmando que a segurança política do regime é prioridade absoluta. O texto defende uma IA benéfica, segura e justa voltada ao bem-estar popular - na lógica da "linha de massas" - e critica países que, "em nome de" segurança nacional, usam listas de entidades, controles tecnológicos e ecossistemas fechados para restringir o acesso à tecnologia de ponta. A autora mostra que a construção retórica "em nome de" é um padrão histórico: Mao sobre a neutralidade americana em 1939, Deng sobre a URSS em 1974, e narrativas recentes sobre Covid, Xinjiang e Hong Kong.
Diferente dessas narrativas anteriores, porém, a relação entre Washington e Vale do Silício foi publicizada pelos próprios protagonistas: Amodei postou seis vezes em seu blog defendendo controles de exportação, e a evidência de destilação chinesa citada pela comunidade de segurança nacional veio da própria Anthropic. Para a China, isso confirma a trama coordenada. Um artigo de junho no People's Daily, do jurista Xiao Junyong, enquadra o "Build American AI" como cópia do manual da "ameaça chinesa": criar alvo, desviar contradições internas e capturar recursos. A autora observa que Xiao confunde aceleracionistas e safetyists - distinção que importa para negociadores, mas não para a mensagem oficial do Partido.
Coxon como o menino que gritou lobo
A renúncia de Jacob Coxon da Anthropic teve recepção cética na China: no Zhihu, respostas cobram resultados concretos (cura de diabetes, fusão nuclear) e ridicularizam o padrão de anunciar novos modelos junto com ameaças à humanidade. Mesmo comentaristas simpáticos assumem que os labs chineses operam sob controle do Estado e que qualquer distopia viria do lado americano - que, segundo eles, admite isso. Para quem já desconfia das motivações americanas, renúncias simultâneas, brechas antitruste e rodadas de captação da OpenAI são mais evidência de conspiração. A sinceridade custosa de Coxon não anula a competição bilateral.
Conclusão da autora
Zhang alerta que os pesquisadores mais jovens da China estão se radicalizando por conta própria, além do que o Partido sugere: internalizaram o discurso ocidental sobre IA autoritária como ataque ao direito de avanço tecnológico do país, e o medo de serem soldados do projeto nacional está dissipando. Ao mesmo tempo, ela aponta que não há motivo para pessimismo total: autoridades do CAC citam os mesmos riscos que Amodei (não confiabilidade, uso em biologia e cyber, autonomia crescente), a Iniciativa Chinesa de Governança Global de IA de 2023 fala em explicabilidade e controle humano, e Xi Jinping apresenta a China como potência responsável multilateral - com a ressalva de que um incidente de perda de controle mancharia a reputação nacional. A corrida nem sempre é para o fundo; a pergunta é como engajar a China levando a competição como fato em evolução. "É tarde para o bunker agora."