Artista cria avatar de IA corporativo para satirizar o LinkedIn
A persona corporativa gerada por IA
A artista e escritora Ruby Bailey, da revista TWIST, criou Ruby Claude Bailey (RCB): uma persona profissional gerada com IA que compartilha seu rosto e nome real, mas ocupa uma posição alguns degraus acima na carreira corporativa dela. Nos últimos meses, RCB documentou no LinkedIn uma trajetória fictícia de sucesso - prêmios, liderança de fusões multinacionais, retiros de liderança, keynotes e escritórios de vidro pelo mundo.
O processo combina direção de imagem e texto automatizado: Bailey direciona as imagens e pede à IA que escreva as legendas com "jargão de LinkedIn" explicitamente genérico, para que o absurdo vaze - como ela descreve, uma "tragédia brechtiana" em que os posts não chegam a parecer deslocados.
Construção do personagem
RCB faz parte da TWIST, uma organização real, e os colegas que aparecem nos posts existem na vida real. A artista inflaciona eventos reais por um filtro de "empregabilidade otimizada e prosperidade corporativa": um preparativo de reunião por WhatsApp vira conversa sobre planos vagos em sala VIP de aeroporto; um desejo de organizar uma gala da TWIST se transforma em presença em gala fictícia, em roupas finas.
Ela mantém uma pasta chamada LINKEDIN WARDROBE com PNGs recortados de lookbooks - Prada, Miu Miu, Dior, Issey Miyake - e escolhe a roupa antes de gerar cada nova situação profissional, comparando o método aos jogos de vestir da infância.
O contexto da estética corporativa
A artista situa o projeto num momento de fascínio pela estetização da cultura corporativa: um estudo de mídia social citado no texto aponta cerca de 2,6 bilhões de visualizações para #officesiren, 600 milhões para #corporategirlie e 60 milhões para #corpcore em 2026. Segundo o estudo, a chegada desses termos coincide com ondas de demissões ou mandatos de retorno ao escritório. O movimento responderia a três pressões: ciclo de moda pós-streetwear e pós-casualização da pandemia, desejo de estrutura e papéis sociais adultos após o trabalho remoto, e insegurança econômica.
RCB, nesse quadro, não é fantasia de fuga da corporação, mas "a corporação aperfeiçoada como imagem".
Referência teórica e arco narrativo
Bailey se apoia no livro Exocapitalism (2025), de Marek Poliks e Roberto Alonso Trillo, que descreve o "lift": a migração do capital de custos fixos, produção material e trabalho humano em direção a camadas de abstração - citando o conceito de "influencer creep" de Sophie Bishop, em que o ato produtivo se desloca para manter visibilidade em torno da produção. Os autores caracterizam o trabalho de colarinho branco como "performance, drag", e chamam o vocabulário do LinkedIn de "slop-speak". Bailey conclui: "RCB é uma drag queen".
O projeto inclui um arco de crise: RCB deixa de ascender e entra em escândalo, com vazamento de material interno (e-mails, canal privado de Slack, documento com comentários contraditórios), um incidente deliberadamente vago "em Lisboa" e o vocabulário de "transparência", "governança" e "alinhamento interno" - culminando num pedido de desculpas estilo anotação do celular em formato de documentário.
A ironia final
Bailey reconhece que não consegue ficar confortavelmente fora do sistema que satiriza: o projeto gera conteúdo no LinkedIn e produz visibilidade profissional real para RCB, para ela mesma e para a TWIST - podendo até deixá-la mais empregável. Citando Exocapitalism: "o drag, contraintuitivamente, acelera o lift". A tese de fechamento é irônica: "LinkedIn é meu meio, e IA é muito boa no meu trabalho".