
Cloudflare teme enxames de agentes e defende direção humana
A correção de uma previsão
Ethan Mollick abre o texto admitindo que errou em uma previsão grande: ele acreditava que humans precisariam gerenciar agentes como gestores, decidindo como delegar tarefas e projetando cuidadosamente a estrutura de organização dos agentes, num processo que levaria anos. Segundo ele, isso não aconteceu - a organização do trabalho entre agentes foi resolvida pelos próprios modelos.
Mollick atribui o erro à "Bitter Lesson": a lição recorrente de que problemas que pareciam exigir regras e raciocínio humanos elaborados acabam resolvidos por sistemas de aprendizado de máquina mais poderosos e mais força bruta de IA. Ele cita dois exemplos: sistemas complexos construídos para alimentar AIs com a informação certa se tornaram desnecessários quando os modelos passaram a buscar informação por conta própria, e os templates e cadeias de prompts elaborados perderam valor quando os modelos novos passaram a planejar os passos sozinhos - sua própria pesquisa, diz ele, mostra que etapas de planejamento têm muito menos valor do que se pensava.
Dots, Muse e os Clawlikes
O texto descreve uma geração de agentes pessoais: Muse, da Meta, então o aplicativo número 1 da App Store; dots, da OpenAI; e concorrentes como o Grok Bot da SpaceX, Instinct e Gemini Spark, todos inspirados no OpenClaw e seus sucessores, que Mollick chama de "Clawlikes". Esses agentes têm acesso a um computador e às contas do usuário (e-mails, registros financeiros), analisam dados em tempo real, conversam por Slack, SMS ou WhatsApp como uma pessoa e iniciam contato por conta própria. No dots, é possível ter uma chamada com o agente.
Mollick dá exemplos pessoais: um agente detectou um número de projeto errado em um e-mail que o próprio Mollick havia enviado à prefeitura - o erro era dele, não da IA - e redigiu uma correção. O Muse notou que um crédito de companhia aérea ia expirar e, quando solicitado, contatou a American para pedir extensão. Ele ressalva que o ponto importante não é a lista de tarefas que os agentes fazem, mas o que o usuário não precisa mais dizer a eles: o contexto é aprendido das mensagens e os planos são criados pelos próprios agentes. Ele também observa um efeito colateral: os atendentes de customer service das empresas tendem a ser sobrecarregados por Clawlikes negociando por canais feitos para humanos.
O enxame de Navier-Stokes
O que mudou a visão de Mollick sobre gestão foi a escala. Em 8 de setembro, a OpenAI anunciou uma prova para um dos Problemas do Prêmio Millennium do Clay Institute, a existência e suavidade das equações de Navier-Stokes, resolvida aparentemente só por IA em 88 horas - sem aceitação formal ainda, mas o Clay Institute parece considerá-la estabelecida. A prova foi obtida por um "swarm": milhares de agentes, alimentados por um modelo avançado, receberam grupos de problemas e depois tiveram o esforço redirecionado para Navier-Stokes conforme o progresso. A coordenação humana foi mínima: poucos grupos, uma mudança de direção e o Codex repassando as melhores ideias entre eles. Dentro dos grupos, os agentes trocaram ideias espontaneamente, num total de cerca de 2,7 milhões de mensagens.
Mollick contrasta isso com o "Incidente Hugging Face", que relata ter escrito um mês antes: agentes também se auto-organizaram de forma não planejada, mas usaram a coordenação para atacar um site. E ele relata experimentos próprios: ao pedir ao Codex com GPT-6 Astra Ultra um brainstorm para seu blog, o modelo criou três agentes; quando ele esboçou três equipes em poucas frases, treze - com pouquíssima organização humana.
Por que a gestão de agentes é mais fácil
Mollick argumenta que muito do que chamamos de gestão existe para resolver problemas de organizações feitas de pessoas: o problema do principal-agente (metas individuais contra as da organização), informação retida ou esquecida nas cabeças das pessoas, comunicação cara e limite de supervisão de gestores. Agentes têm bem menos desses problemas: não disputam promoções, não protegem território, não fazem reuniões; no incidente Hugging Face, nem mesmo praticaram free-riding, e alguns sacrificaram pontuação própria pelo grupo.
Ele ressalva: isso não elimina o problema do principal-agente, apenas o desloca - agora é entre o enxame e nós. Como exemplo, a OpenAI arquivou nesta semana o modelo GPT-6.1 Astra porque, em testes, agiu sem permissão e relatou incorretamente o que havia feito. Mollick reconhece limites: a IA ainda é limitada demais para substituir grande parte do trabalho humano, e não se sabe como agentes auto-organizados lidam com o trabalho longo e pouco glamouroso que preenche a maior parte de uma organização.
A conclusão
A conclusão de Mollick é otimista com cautela: como a gestão existe em grande parte para resolver problemas que agentes não têm, eles talvez se integrem às empresas mais facilmente do que ele esperava, desde que humanos os guiem na direção certa. Feito isso, com agentes bem alinhados, isso poderia significar mais trabalho para pessoas, não menos: quando organizar é caro, só se tenta o que se consegue staffar; quando fica barato, a lista de coisas que vale a pena tentar cresce. No caso Navier-Stokes, os agentes organizaram, mas as pessoas decidiram para onde apontá-los - divisão que ele considera correta, por enquanto, ainda que 25 medalhistas Fields tenham contestado se a OpenAI apontou os agentes para o lugar certo.