
Influenciadores falsos gerados por IA competem com criadores reais e geram receita
Como um personagem de IA é criado
Um influenciador de IA é um personagem cujas imagens ou vídeos são gerados por inteligência artificial. Uma pessoa ou empresa lhe dá rosto, nome e conta em redes sociais, e publica como se fosse um modelo, um criador de estilo de vida ou um comediante. Segundo a reportagem, os tutoriais que circulam nas redes descrevem um processo em poucas etapas: definir a aparência, usar ChatGPT ou Claude para desenvolver o personagem, criar uma "folha de personagem" com imagens de referência e levar essas imagens a uma ferramenta de vídeo, como o Genjutsu, da Higgsfield.
Alguns tutoriais sugerem baixar um vídeo viral e trocar o intérprete original pelo personagem, mantendo movimento, enquadramento e iluminação. Outros recomendam gravar o próprio vídeo e usar a ferramenta para transferir os movimentos ao personagem. Serviços como HeyGen, que oferece avatares falantes, e ElevenLabs, que gera voz, completam o processo. Com eles, o operador da conta pode criar a aparência de uma pessoa que pode posar, se mover e falar, sem que essa pessoa exista.
Como o dinheiro entra
A reportagem ressalta que muitas visualizações não se convertem em renda fixa. Os ganhos podem vir de repasses de plataformas, de contratos com marcas ou da venda de algum produto ao público. No YouTube, o Programa de Parceiros paga parte da receita de anúncios a criadores elegíveis, e vídeos gerados por IA podem se qualificar, desde que o canal cumpra as exigências de originalidade. A plataforma afirma que conteúdo de IA feito com modelos genéricos ou não originais, que dá a impressão de produção em massa sem perspectiva própria, não é elegível à monetização. No TikTok, o Programa de Recompensas para Criadores paga por vídeos originais de mais de um minuto, mas, segundo a reportagem, clipes de IA podem atrair milhões de visualizações sem render nada, nessa plataforma e no Instagram.
Por isso, muitas contas usam vídeos gratuitos como vitrine para assinaturas pagas. Links no perfil levam a plataformas de conteúdo adulto, como OnlyFans e Fanvue, que aceita criadores de IA e oferece assinaturas, posts pagos, mensagens e gorjetas. Há ainda quem venda cursos: a personalidade de IA Aitana López, com mais de 400 mil seguidores no Instagram, direciona o público para uma comunidade paga na Skool, com mensalidade de US$ 9 e aulas sobre criação, campanhas e automação.
Quando o trabalho de criadores reais é copiado
O caso central da reportagem é o da conta "Tiffany Sloane", no Instagram, com cerca de 377 mil seguidores e publicações iniciadas em 11 de setembro. A conta publica esquetes e clipes de stand-up gerados por IA, com vídeos que vão de 10 mil a milhões de visualizações. O perfil informa que o personagem é gerado por IA, mudança que, segundo a reportagem, ocorreu durante a apuração. Os destaques levam a uma página no OnlyFans com a bio "19, and yeah, the body’s real". Quem opera essa página, e se ela mostra uma mulher real, não foi confirmado. A conta de Instagram aparece desativada.
O comediante George Brett Olsen comparou um vídeo seu com um da conta, com roupas, gestos e a mesma piada, e afirmou que a conta copia piadas de comediantes e que não conseguiu denunciá-la. Olivia Carter disse que uma piada sua, apresentada na Netflix e no The Tonight Show, reapareceu em um vídeo de outra conta de IA, que a bloqueou. Sarah Purdum e Julia Jasunas também tiveram piadas identificadas em uma conta ligada a um perfil da Fanvue. Purdum afirmou que conhece um caso com o próprio trabalho e que a comunidade de comédia discute experiências semelhantes, sobretudo entre mulheres.
A reportagem também registra comentários de públicos que levam a conta a sério, embora muitos percebam a farsa. A capitalista de risco Justine Moore chamou a tática de "genius marketing hack" em uma publicação no X. Para a reportagem, a questão de gênero aparece na sexualização das personagens femininas, com seios e quadris exagerados e roupas justas, o que pode atrair assinaturas e também alimentar pressões sobre a aparência real das mulheres. Sara Ziff, da Model Alliance, afirmou ao New York Times que o uso de IA para criar pessoas idealizadas pode restringir a noção de beleza, e defendeu que as plataformas retirem trabalhos plagiados.
Agências de personagens fictícios
Além da reutilização de vídeos virais, há empresas que criam personagens para publicidade e entretenimento. A agência The Clueless gerencia Aitana López, descrita como nascida em Barcelona e com 26 anos, e segundo a própria agência ela já apareceu em campanha da Amazon e trabalha com marcas como L’Oréal e Coca-Cola. A Inception Point AI tem mais de 100 personagens sobre jardinagem, culinária e fofocas de celebridades, que podem apresentar podcasts e interagir com seguidores. Sua CEO disse ao New York Times que, enquanto o público gostar do conteúdo, acredita que ele aceitará a origem em IA. Andreea Petrescu, cofundadora da Seraphinne Vallora, descreveu a IA como uma "clean slate".
Regras das plataformas e limites
A reportagem diz que as plataformas tratam parte do problema. A Fanvue permite conteúdo de IA, mas proíbe engano e violação de direitos de propriedade. O OnlyFans exige que o conteúdo mostre o criador verificado e seja identificável como IA. Meta, TikTok e YouTube oferecem rótulos ou ferramentas de divulgação. A reportagem observa, porém, que um rótulo não indica de onde veio a atuação original nem se o criador autorizou o reuso. O TikTok proíbe certas representações sintéticas, mesmo rotuladas, como as de menores de 18 anos e de particulares adultos usados sem permissão. Segundo uma fonte da empresa, o TikTok testa ferramentas como o "AI Cast", que cria um "AI Self", e afirma estar testando estratégias para proteger a imagem de IA na plataforma. O YouTube esclareceu em julho de 2025 que conteúdo repetitivo ou produzido em massa não pode gerar renda pelo Programa de Parceiros.
A conclusão da reportagem é que a concorrência já é difícil para criadores, e que, em um ecossistema em que alguém pode trocar o rosto de uma performance e usá-la para construir a própria audiência, eles passam a competir também com uma versão do próprio trabalho.