
O que significa good enough para designers na era da IA
A armadilha da fidelidade
O texto parte de uma tese: aprender a dizer « bom o suficiente » é uma habilidade de design, não uma concessão. Segundo o autor, a pressão por acabamento cresceu com a grande quantidade de produção por IA, mesmo quando ela é ruim. Isso leva designers a recalibrar seus padrões para cima. Ele cita o relatório AI in Design 2026, da Designer Fund, em que 73% dos designers dizem que as expectativas sobre resultado, qualidade e velocidade estão subindo. No relatório State of the Designer 2026, da Figma, 58% associam craft a acabamento visual, e 47% a resolução de problemas.
O autor chama esse efeito de « armadilha da fidelidade »: o piso subiu, e com ele a exigência de entregar acabamento de handoff em todas as etapas. Para ele, isso piora o trabalho em si, porque desvia o foco da decisão que precisa ser tomada.
Começar pelo que o trabalho precisa desbloquear
A proposta prática é nomear, antes de abrir a ferramenta, o próximo passo que o artefato deve viabilizar e quem vai dá-lo. Isso define o que construir e o que pode ficar bruto. Os exemplos do texto são:
- Teste de usabilidade: o fluxo principal precisa estar completo, com textos reais nas telas que serão tocadas. Botões fora do caminho podem ficar inativos.
- Estimativa de engenharia: importam os estados (vazio, erro, carregamento). Caixas cinza bastam, e a cor não muda a estimativa.
- Escolha de direção: duas opções brutas, lado a lado, com o trade-off escrito. Polir uma antes da decisão sugere que a escolha já foi feita.
- Aprovação da liderança: uma tela principal em alta fidelidade, deixando o restante bruto, já que executivos tendem a julgar o conjunto pela tela que veem.
Como verificação, o autor sugere mostrar o trabalho a uma pessoa e observar os comentários. Se forem sobre a decisão, a fidelidade está adequada. Se forem sobre raio de borda ou peso de ícone, houve excesso. Ele também recomenda definir um tempo limite e perguntar, ao final, se a pessoa consegue decidir com o que foi produzido.
Um critério escrito para o « bom o suficiente »
O autor afirma que o julgamento não precisa ser só intuição. Ann Emery, em sua palestra « Good Enough DataViz », apresentou uma lista de critérios para avaliar se uma visualização atinge o padrão mínimo. Isso evita reinventar o padrão a cada projeto. Marie-Claire Dean defende que o padrão de qualidade deve existir em formato aplicável, e não apenas na cabeça do profissional mais sênior. Algumas equipes já adotam essa prática, carregando componentes de design system e diretrizes de marca em ferramentas de código, para que quem gera interfaces parta de uma base comum.
O autor propõe um checklist de design com perguntas como:
- O público entende sem você presente?
- A resposta responde à pergunta que foi feita?
- Uma versão mais simples teria gerado o mesmo resultado?
- Há detalhes de acabamento que servem ao craft, e não à compreensão?
- Alguém consegue agir com base nele?
Ele ressalva que nada disso impede ir além quando há tempo. Com prazos apertados e orçamento inexistente, porém, a mentalidade de « bom o suficiente » deve prevalecer.
O que a IA muda e o que não muda
O autor relata uma conversa com o Head of Design de uma empresa B2B SaaS. Quando perguntado se a IA mudou o valor dado ao design na organização, ele respondeu que não. O relatório AI 2026 da Figma indica que 57% dos respondentes acham que o design ficou mais importante. Entre desenvolvedores, esse número subiu de 44% para 65% entre 2025 e 2026. O autor interpreta que o valor nunca esteve nos pixels.
Segundo o texto, a IA comprime etapas, como a síntese de pesquisa, que pode passar de semanas para dias. Mas a análise crítica, como verificar se o fluxo faz sentido e está bem sequenciado, não fica mais rápida. O novo agente da Figma, apresentado no Config 2026, pode gerar e remixar designs e apontar o que parece errado. Ainda assim, não define quais partes importam para a decisão em questão.
A frase final do Head of Design resume o argumento: « AI is a look in the past, not a look into the future. Your brain is the one that brings it into the future. » Para o autor, « bom o suficiente » significa saber o que o trabalho precisa desbloquear e ter critério para parar quando isso acontece. Esse julgamento, segundo ele, continua sendo uma parte do trabalho que a IA não pode assumir.