
IA homogeniza design mas efeito é pequeno em tarefas criativas
A homogeneização do design pela IA é real, mas o efeito é menor do que o pânico sugere
MC Dean parte de uma observação comum: produtos digitais estão cada vez mais parecidos entre si - mesmos onboardings, mesmos empty states com ilustrações simpáticas, mesma estética arredondada e polida. Parte dessa convergência já vinha acontecendo com Design Systems e melhores práticas, mas a IA acelerou o processo.
O que a pesquisa mostra
Uma equipe da USC, liderada por Morteza Dehghani, publicou uma revisão na Trends in Cognitive Sciences argumentando que, quando escrita, raciocínio e resolução de problemas passam pelos mesmos modelos, a distintividade individual é "lixada" - as pessoas convergem para um meio-termo padronizado de expressão.
Individualmente, quem usa IA tende a produzir mais volume, mas com menos originalidade por unidade. Em grupos, o efeito é ainda pior: times usando LLMs geram menos ideias distintas do que times que apenas conversam entre si.
Uma revisão sistemática com meta-análise (19 estudos, 61 tamanhos de efeito) confirmou um efeito mensurável de homogeneização quando pessoas co-criam com IA. Porém, o efeito medido é pequeno - comparável ao dano de uma sessão de brainstorming mal conduzida.
Onde a homogeneização é mais forte
A convergência é mais intensa em tarefas de "ideação semanticamente restrita": prompts apertados, espaço estreito de respostas boas e alvo claro. Exemplos típicos: conceitos de onboarding, empty states, fluxos de cadastro. O autor argumenta que essas tarefas já vinham convergindo naturalmente, e que aplicar padrões universais comprovados permite que usuários tenham referências claras e que equipes foquem em problemas mais difíceis.
O outro lado
A mesma ferramenta que reduz variância também expandiu possibilidades: pessoas sem equipe de design agora conseguem chegar a um resultado "bom o suficiente", o que eleva a qualidade média de produtos. O problema é que, sem intenção, todos ficam um pouco mais parecidos.
A proposta: ir para as bordas
O autor sugere que designers dediquem tempo ao que não é óbvio: articular cultura de um demográfico, explorar motion design e layouts antes impossíveis, trabalhar em alinhamento de valores como problema de design. Ele cita exemplos ambiciosos - Project CETI (decodificar linguagem de cachalotes), Earth Species Project, Vesuvius Challenge (ler pergaminhos carbonizados) e AlphaFold - como prova de que a energia criativa pode ser direcionada a montanhas muito maiores.
A pergunta final
Quando todos tiverem as mesmas ferramentas e prompts, alguém conseguirá distinguir seu trabalho? A resposta, segundo o autor, está em escolher deliberadamente manter suas bordas, porque o modelo não fará isso por nós.