
Google pode estar mudando da corrida por modelos para difusão de IA
A reestruturação do DeepMind e a leitura da SemiAnalysis
Em 5 de agosto de 2026, o Google anunciou mudanças profundas: Demis Hassabis se afastou das operações diárias do DeepMind, e Jeff Dean deixou a empresa para fundar um novo laboratório chamado Discovery Loop, levando consigo Sanjay Ghemawat, Quoc Le e Oriol Vinyals. Koray Kavukcuoglu, CTO do DeepMind, assumiu a responsabilidade operacional sobre o DeepMind e o Gemini.
A SemiAnalysis interpretou isso como sinal de que o Google está perdendo a corrida de IA de fronteira. Segundo a análise, o DeepMind deixou de ser um laboratório de fronteira, e as saídas seriam sintoma de anos de alocação tímida de compute e cultura burocrática. A estimativa é que o Gemini tenha gerado US$ 12 bilhões em ARR no 2º trimestre de 2026, enquanto o Google Cloud pode alcançar mais de US$ 73 bilhões em receita de terceiros com IaaS/TaaS de IA e US$ 120 bilhões em vendas de TPUs até o fim de 2027 - totalizando cerca de US$ 200 bilhões em vendas externas com margens EBIT na casa dos 30%.
O Google Cloud reportou US$ 24,8 bilhões em receita no último trimestre, crescimento de 82% ano a ano, contra 37% da AWS e 43% do Azure (embora os números não sejam estritamente comparáveis).
A analogia com Westinghouse e a difusão
Tim O'Reilly propõe uma leitura alternativa: o Google pode estar fazendo uma aposta estratégica semelhante à de George Westinghouse na guerra das correntes. Edison era o líder de fronteira (corrente contínua), mas Westinghouse venceu a corrida de difundir eletricidade pela sociedade com corrente alternada.
O'Reilly se apoia no livro Technology and the Rise of Great Powers, de Jeff Ding, que argumenta que a difusão de uma tecnologia de propósito geral importa mais do que dominar sua fronteira. A Grã-Bretanha venceu a primeira revolução industrial não por inventar a máquina a vapor, mas por difundir maquinaria por toda a economia. Os EUA venceram a revolução da informação não por fabricar os melhores chips, mas por espalhar computadores por todos os setores.
A estratégia de plataforma
Thomas Kurian, CEO do Google Cloud, tem dito que quer tornar os TPUs "infraestrutura de propósito geral", servindo tanto ao Citadel Securities quanto ao Departamento de Energia. Kurian defendeu vender compute para a Anthropic como algo natural para uma empresa de plataforma - ser a camada sobre a qual a IA de outros roda, incluindo concorrentes.
O'Reilly nota que modelos de peso aberto continuam comprimindo preços de inferência, o que pode tornar a liderança em modelos de fronteira parecida com fabricação de semicondutores: estrategicamente importante, mas surpreendentemente ruim como negócio standalone.
O Google também não precisa vencer na fronteira para dominar na borda. Seus modelos Flash já rodam o AI Mode no Search em escala enorme, e a empresa tem vantagens de distribuição via Android, Chrome, Search e Play. A hipótese é que o Google possa ceder a corrida cara e não lucrativa da fronteira e se destacar no espaço de US$ 120 bilhões onde acessibilidade e hardware local se encontram.
Conclusão
O'Reilly conclui que a SemiAnalysis provavelmente está certa sobre o que o Google abriu mão, mas possivelmente errada sobre o motivo. Pode não ser abandono de ambição tecnológica, mas uma mudança sobre onde alocar compute escasso e onde capturar valor econômico. A corrida de IA pode não ser sobre quem constrói a melhor inteligência, mas sobre quem constrói a rede elétrica.