
Uso excessivo de IA pode tirar o humano do controle
Um retorno desconfortável ao uso de IA
Depois de passar algumas semanas de férias longe do computador, do celular e da IA, Brent Fitzgerald percebeu que não sentia falta das ferramentas. Ao retomar o trabalho, encontrou onze abas do cmux abertas, com vários agentes interrompidos no meio de tarefas, além de conversas não lidas no Claude sobre assuntos que iam de impostos a jardinagem e revisão de documentos. Para ele, o acúmulo se parecia com uma versão pior de manter abas demais abertas: cada item representava uma iniciativa inacabada, uma tentativa de automatizar algo ou de terceirizar parte do próprio pensamento.
Fitzgerald afirma que seu uso de IA havia se tornado uma muleta formadora de hábitos. Em sua avaliação, isso o deixou menos forte intelectualmente, menos curioso e menos confiante, e talvez tenha contribuído para um estado depressivo. As ferramentas também deram novos caminhos à pressão que ele já exercia sobre si mesmo. Em vez de ajudá-lo a escolher o que realmente importava, alimentaram a sensação de que ele deveria produzir mais, abrindo espaço para novas conversas com agentes, painéis de terminal, ramificações não solicitadas e textos que jamais leria.
Automação como fuga
O autor diz ter criado muitas ideias inacabadas de ferramentas e serviços de que mal precisava, impulsionado por workaholism não enfrentado e por um desejo otimista de que a tecnologia resolveria mais problemas. Embora algumas dessas criações funcionassem, elas não ajudavam ninguém, não aumentavam seu tempo livre nem o deixavam mais feliz. Projetos pessoais que antes serviam para aprender e relaxar passaram a privilegiar a chegada rápida ao resultado, justamente eliminando a parte do aprendizado que trazia prazer.
Ele também passou a usar agentes como uma camada entre si e tarefas estressantes. Ao ditar pensamentos e conversar com o ChatGPT durante caminhadas ou deslocamentos, dizia estar trocando ideias consigo mesmo e aproveitando um tempo improdutivo. Em retrospecto, porém, reconhece que se tratava de um espelho bajulador, cujo resultado não era confiável para o trabalho. Em outro padrão, tentava automatizar e paralelizar tarefas para trabalhar mais depressa, mesmo quando ninguém havia pedido esses ganhos de eficiência. A ferramenta passou a ser aplicada à tarefa de maximizar o próprio uso da ferramenta, formando um ciclo de produtividade autorreferente.
Fitzgerald ressalva que a tecnologia não necessariamente produz esses efeitos em todos os usuários. Para ele, o formato, o design e a cultura ao redor das ferramentas influenciam fortemente os hábitos. Também suspeita que o uso de agentes não seja intrinsecamente viciante no mesmo sentido que a rolagem interminável de feeds, mas identifica efeitos reais de dependência e habituação. A indústria de tecnologia, acrescenta, aposta em uma dependência socioeconômica ampla de modelos de linguagem para justificar suas avaliações.
Uso deliberado
A proposta do autor é decidir conscientemente quando usar IA e quando deixá-la de fora, avaliando com honestidade o que se ganha e o que se perde. Ele cita um uso mais restrito do Pi em um projeto profissional: forneceu contexto, requisitos, dúvidas e expectativas claras, e pediu a análise de bases de código, wikis, esquemas e conversas para apontar problemas e possíveis soluções. A ferramenta não entregará a solução perfeita nem o tornará dez vezes mais produtivo, mas pode localizar padrões e lacunas em sistemas que ele não gosta de examinar. Assim, a IA pode liberar tempo para escrever e refletir. A conclusão é cautelosamente otimista: a tecnologia talvez ajude pessoas a viver de modo mais rico e ponderado, mas somente se for usada nos termos humanos, com o agente acionado ocasionalmente e de forma deliberada.