
Starlink planeja redes celulares terrestres com backhaul orbital
A proposta
A SpaceX afirmou, em sua primeira teleconferência de resultados, que a Starlink pretende entrar no mercado de telefonia celular terrestre. O plano seria construir um grande número de estações celulares abastecidas por backhaul via satélite, usando a capacidade dos satélites V3 e de uma constelação cada vez maior. O texto, porém, ressalta que não é possível saber quão séria é a intenção: Elon Musk costuma fazer previsões ambiciosas que não se concretizam, e, na mesma chamada, mencionou fábricas na Lua.
Mercado e espectro
O primeiro obstáculo é comercial. O mercado celular dos Estados Unidos está cada vez mais competitivo, e a Starlink provavelmente só conquistaria muitos clientes se reduzisse os preços, o que coloca em dúvida a rentabilidade do projeto. Além disso, redes urbanas americanas já oferecem velocidades de dados celulares de 300 Mbps ou mais, portanto a proposta não teria uma vantagem tecnológica evidente nesse mercado. O objetivo poderia estar em países populosos, como a Nigéria, onde as redes celulares são inferiores e a população depende mais do celular do que da banda larga fixa.
A Starlink também ainda não dispõe de espectro suficiente. A empresa está adquirindo 65 MHz da EchoStar, quantidade considerada insuficiente para competir no serviço celular terrestre. O texto observa que, depois da abertura de capital, a companhia teria dinheiro para comprar mais espectro. Também cita o OBBB, no qual o Congresso determinou que a FCC encontre 800 MHz de espectro de faixa média para leilão; isso poderia ampliar a oferta disponível ao longo da próxima década.
Capacidade e entrada no mercado
Outro ponto é a capacidade necessária para conectar a rede. Hoje, a maioria das estações celulares recebe conexões de backbone de 5 a 10 Gbps. Mesmo com a capacidade muito maior prevista para as novas constelações da Starlink, atender centenas de milhares de estações consumiria uma parcela relevante da capacidade total dos satélites. A análise sugere que a SpaceX teria de expandir muito além dos 15 mil satélites atualmente aprovados pela FCC, possivelmente em direção aos 100 mil que solicitou. O aumento do uso celular também exigiria muitas outras estações terrestres para alimentar a rede.
A entrada poderia ser especialmente difícil porque as três grandes operadoras americanas mantêm acordos de roaming entre si e talvez não facilitassem a chegada de um novo concorrente. Sem cobertura quando viajassem para outras regiões do país, poucos consumidores comprariam o serviço. Por isso, surgiu a especulação de que o anúncio serviria para pressionar as grandes operadoras a oferecer um acordo de MVNO, permitindo à SpaceX combinar serviço celular terrestre revendido com conectividade via satélite e construir suas próprias estações seletivamente ao longo do tempo.
Avaliação
Comentários associados à publicação levantam alternativas e dúvidas: a SpaceX poderia comprar uma operadora de cabo para aproveitar um contrato de MVNO, ou vender apenas backhaul às empresas celulares, opção possivelmente mais econômica em áreas pouco povoadas. Também são citadas limitações de antenas dos celulares, escala, espectro, nuvens, árvores e telhados. A conclusão é que a proposta parece tecnicamente possível, mas não seria fácil. Um acordo de MVNO com uma grande operadora ofereceria o caminho mais simples, embora a SpaceX talvez tentasse avançar mesmo sem essa entrada facilitada.