
IA transforma software em conteúdo remixável e o feed pode virar app store
Tese
O texto parte da ideia de que escrever código ficou barato o suficiente para que as pessoas criem software por diversão e o publiquem, como fazem com qualquer outro conteúdo. Até agora, a conversa sobre codificação assistida por IA e "vibe coding" girava em torno de ganhos de produtividade, mas as consequências são mais amplas. Um vídeo do funcionário da OpenAI Rohan Nuttall, mostrando uma foto de uma estante de livros que se torna interativa a partir de um comando ("Astra, torne esta foto interativa e encontre os livros"), ultrapassou 1 milhão de visualizações, e criadores passaram a construir aplicativos extravagantes em torno de hobbies: leitura, moda, ciclismo, coleção de vinhos. Um deles reuniu 831 estilistas organizados por estilo, década e país.
A autora argumenta que "software como conteúdo" é uma categoria diferente, não um caminho de entrada mais fácil para criar produtos. Ela não tem destino: pode ser vista e consumida em um feed, faz o que faz, e não há nada a que se inscrever. O exemplo da estante se comporta como conteúdo até o momento em que o usuário quer usá-lo e precisa acessar o app.
Mecanismos e evidências
A versão em escala já ocorre na China: o Xiaohongshu (RedNote) permite que usuários criem mini-aplicativos por vibe coding dentro do app e os compartilhem diretamente no feed, publicar um app é tão simples quanto postar uma nota. A plataforma afirma que 40 mil a 50 mil desses apps são feitos por mês desde fevereiro e que cerca de 160 mil pessoas construíram com IA no último ano; o Xiaohongshu tem aproximadamente 400 milhões de usuários mensais. Entre os apps populares estão testes de personalidade, calculadoras de aluguel e geradores de padrões de contas. O slogan de marketing do lançamento equivale a "conteúdo é distribuição". O Xiaohongshu também passou a permitir o compartilhamento de "Skills"; Alibaba, Tencent e ByteDance fizeram o mesmo. O texto resume: a loja de Skills é um feed, e o feed é a app store.
Conteúdo interativo não é novidade: stickers "Add Yours", enquetes e quizzes do Instagram Stories, o Remix do TikTok. O Snap Lens é o exemplo mais próximo em um app ocidental mainstream, com mais de 4 milhões de Lenses construídas e alcance de quase um bilhão de usuários mensais. A diferença de um app como a estante é que ele não tem moldura: seu único limite é a imaginação do criador.
O texto cita o Scratch, em que um quarto de tudo o que é compartilhado é remix de outro projeto, e argumenta que, com IA, um modelo pode ler um app que não construiu, identificar quais partes são ajustáveis e expô-las ao usuário, calculando isso na hora, por app. O que é novo não é o comportamento, mas o fato de não estarmos mais restritos a modelos prontos.
Quem distribui
A divisão entre ver e usar software já desapareceu no Xiaohongshu, mas no X ainda existe: o app por trás da estante exige abrir um navegador e sair do feed, e, como as plataformas penalizam links externos, muitos criadores apenas compartilham vídeos. A previsão óbvia é que, se o Xiaohongshu der certo, outras plataformas seguirão. Um desafio são as regras da Apple contra vibe coding e execução de código. Mas o problema mais profundo não é a Apple: historicamente, software que roda no feed de outra pessoa é encerrado, porque a questão é quem captura a atenção. Um feed vende tempo contra inventário que possui. É possível que posts interativos aumentem o tempo total de uso em vez de deslocá-lo, como o vídeo curto fez, mas esse argumento costuma vencer só quando uma plataforma está perdendo usuários para uma rival que tinha o formato.
O texto lembra que o MySpace permitiu embeds do YouTube até o YouTube crescer, quando bloqueou; o WeChat permitiu páginas interativas de marcas no Moments até as páginas preencherem o Moments, quando criou regras e passou a vender o mesmo formato como anúncios. O Discord é a exceção: como vende assinaturas e não um scroll, apps embutidos em iframe não "roubam" nada.
A Meta lançou discretamente o app Pocket no fim de junho, só no Brasil, e o abriu nos Estados Unidos em 20 de agosto: o usuário escreve um prompt, o Pocket gera um "Gizmo" interativo e o publica em um feed onde outros podem jogar, salvar, repostar ou remixar. O formato vai para onde não compete com o negócio existente: para a Meta, um app separado; para o Xiaohongshu, dentro do app principal, já que é menor que o Douyin e está crescendo. A conclusão é que demanda e oferta existem, mas não está definido quem distribui o conteúdo nem qual plataforma decide que hospedá-lo vale mais do que a atenção que vende.