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Portão de escola vazio dando acesso a beco com telas de fliperama, metáfora da internet sem crianças na Austrália
Marketing & Growth

Ban australiano desativa 4,7M de contas, mas mais de 80% das crianças seguem nas redes

resumo de ~3 min

O ban australiano e o deslocamento dos jovens

A proibição australiana de redes sociais para menores de 16 anos entrou em vigor em dezembro de 2025 e levou à desativação de cerca de 4,7 milhões de contas nas primeiras cinco semanas. Ainda assim, a eSafety Commissioner do país relatou depois que mais de 8 em cada 10 crianças pesquisadas continuavam usando ao menos um serviço com restrição de idade. A ideia se espalhou de qualquer forma: os Emirados Árabes Unidos adotaram restrições próprias em junho, com 12 meses para as plataformas cumprirem, e outros governos avaliam medidas semelhantes.

A tese do artigo, apoiada pela antropóloga digital Crystal Abidin, da Curtin University, é que tirar crianças das grandes plataformas não as tira da internet - apenas as realoca. A pesquisa da Ofcom de 2026 mostra que YouTube e WhatsApp estão entre os serviços mais usados por crianças no Reino Unido, e a Austrália tem cerca de 1,7 milhão de jovens usuários de Roblox. Jovens já formam comunidades em espaços menos visíveis antes que os criadores os sigam. O ban temporário do TikTok nos EUA ilustrou a velocidade dessa migração: em janeiro de 2025, mais de meio milhão de "TikTok refugees" aderiram ao app chinês Xiaohongshu (RedNote), segundo a Reuters. Abidin observa que há versões regionais de aplicativos - japonesas, coreanas, do Sudeste Asiático, e do Oriente Médio como Yalla e Jodel - que nenhuma regulamentação considerou, e que celebridades como Erling Haaland (Douyin, Weibo) e MrBeast (Bilibili) já constroem audiências na China.

A economia dos criadores mirins

A influência econômica dos jovens é relevante: um estudo de 2023 da Harvard T.H. Chan School of Public Health estimou que as grandes plataformas ganharam quase 11 bilhões de dólares em receita publicitária dos EUA vindas de usuários menores de 18 anos em 2022 - 41% da receita de anúncios do Snapchat, 35% do TikTok e 27% do YouTube. A Gen Alpha impulsionou hype em torno de Sephora e Drunk Elephant, e a Circana apontou que lares com crianças gastam mais com beleza. O ban, argumenta o texto, não apaga a demanda, mas tira das marcas a capacidade de vê-la e alcançá-la.

Há ainda uma zona cinzenta: as regras impedem que crianças tenham contas próprias, mas não impedem adultos de publicar conteúdo com elas. No UAE, a Resolução 106 de 2026 permite participação estruturada em conteúdo não nocivo sob supervisão dos pais. Abidin destaca que a verificação de idade se baseia em quem detém a conta, não em quem aparece no conteúdo - uma brecha fácil. Na Austrália, mais de 275 mil criadores se identificam como influencers de família ou parentalidade, cerca de um em cada cinco, segundo dados da Fabulate Discovery citados pela AIMCO; alguns pais reenquadraram contas infantis como "contas de família". Alguns governos agem sobre o trabalho infantil separadamente: Illinois (2024) garante a crianças que aparecem em conteúdo monetizado uma parcela dos ganhos em custódia até os 18 anos, e Califórnia e Minnesota adotaram proteções semelhantes.

Um problema de regulação mal direcionada

Sonia Livingstone, do centro Digital Futures for Children, descreveu os banimentos como "uma admissão de fracasso": governos incapazes de regular as plataformas acabam regulando as crianças. Pesquisas do centro alertam que restrições genéricas podem excluir jovens de oportunidades de comunicação e aprendizado sem atacar os sistemas que os expõem a danos.

Para Abidin, marcas e plataformas - que financiam os influencers e lucram com as audiências familiares - são um ponto de intervenção mais eficaz do que restrições no nível da conta. A conclusão do artigo é que um suposto "internet sem crianças" reduziria alguns riscos, mas poderia tornar a vida online dos jovens menos visível a pais, pesquisadores e reguladores, empurrá-los para plataformas menores ou.apps não contemplados pela lei, e excluí-los da fluência digital necessária para julgar o que é certo, falso ou perigoso.