
Definição concreta de product sense e como desenvolvê-lo
O problema com as definições existentes
Tanner Kohler, da Nielsen Norman Group, argumenta que o termo "product sense" é usado de forma vaga no mercado. A definição mais citada - de Jules Walter na Lenny's Newsletter (2022) - descreve product sense como a combinação de empatia para descobrir necessidades dos usuários e criatividade para criar soluções. O problema, segundo Kohler, é que essa definição não explica como reconhecer, medir ou desenvolver essas qualidades.
Os conselhos mais comuns (fazer teardowns de produtos, observar usuários, estudar dados, ler reviews) sugerem que acumular inputs dispersos gera intuição confiável. Kohler discorda: isso é necessário, mas não suficiente.
A definição proposta
Kohler propõe: product sense é a capacidade de reconhecer quando problemas atuais correspondem a sucessos ou fracassos passados e estimar com confiabilidade como soluções similares afetarão os resultados desejados.
Isso exige fechar o loop completo de experimentação: enfrentar problemas, escolher soluções, medir resultados e refletir sobre eles. É o mesmo mecanismo documentado em especialistas de outros domínios - chefes de bombeiros, enfermeiras de UTI neonatal, enxadristas - que desenvolvem intuição confiável por meio de repertórios ricos de experiências completas.
Saber quando os padrões NÃO se aplicam
Um diferencial da definição de Kohler é incluir o julgamento sobre quando a intuição é inadequada. Ele classifica situações em três categorias:
- Alta validade: o problema espelha o ambiente onde os padrões foram aprendidos. A intuição funciona bem (ex.: designer que já otimizou vários checkouts enfrenta um checkout similar).
- Baixa validade: o problema difere significativamente do contexto de aprendizado. A experiência ajuda, mas não garante acerto (ex.: produto zero-to-one com feedback loop longo).
- Situações "wicked" (perversas): o problema parece familiar, mas a solução passada não se aplica. É a categoria mais perigosa, porque reforça padrões errados enquanto infla a confiança (ex.: replicar uma feature de sucesso em outro produto sem testar, porque o público é diferente).
Como desenvolver product sense
A recomendação central é participar de ciclos completos de desenvolvimento de produto - da avaliação inicial à medição de resultados. Kohler alerta que muitos profissionais hoje trabalham como "bombeiros que saem no meio do turno": recebem pedidos, criam soluções e seguem em frente sem acompanhar se funcionou. A IA acelera esse padrão.
Práticas concretas sugeridas:
- Ficar tempo suficiente para ver os resultados do próprio trabalho antes de trocar de projeto ou emprego.
- Documentar a lógica de decisão e as hipóteses específicas (quantitativas ou qualitativas) antes de ver os resultados.
- Medir resultados reais, não apenas outputs entregues.
- Refletir sistematicamente: o que funcionou, o que não funcionou, por quê, e a qual experiência passada a situação mais se assemelha.
Conclusão
Kohler encerra com um alerta: com velocidade crescente e mais decisões delegadas à IA, profissionais correm o risco de nunca desenvolver product sense de verdade. Intuição vem de tempo e exposição repetida a decisões reais e seus resultados. "Fique no ringue, seja dono das suas decisões e enfrente os resultados."