
Ética no design com IA depende de contexto e de quem é prejudicado
O exemplo do cartaz de cachorro perdido
Michael Buckley, professor de Design da Seton Hall University, parte de um caso concreto: um cartaz de cachorro perdido visivelmente feito com IA, no estilo reconhecível de imagens excessivamente polidas. Sua pergunta: os designers mais críticos da IA criticariam alguém por usá-la para encontrar o próprio animal de estimação? Ele supõe que não.
Cenários que mudam o julgamento
Buckley constrói uma série de casos de dificuldade crescente. Uma pizzaria tradicional em dificuldades financeiras usa IA para criar materiais promocionais porque não pode pagar um designer profissional - a IA não teria roubado trabalho, mas pode ter viabilizado um trabalho de design que não existiria. Um estudo da OECD de 2025 com mais de 5.000 pequenas e médias empresas confirma o padrão: 31% já usavam IA generativa, e 29% dos usuários disseram que ela ajudava a competir com empresas maiores.
O terceiro caso é uma grande corporação de produtos sustentáveis em crise financeira, que escolhe entre falir (eliminando centenas de empregos) ou automatizar parte das operações de design. Buckley argumenta que, se a substituição de trabalho humano por IA fosse inerentemente antiética, o julgamento deveria ser constante em todos esses casos. Mas não é: quando a mesma empresa é altamente lucrativa e demite designers apenas para aumentar lucros, a objeção se intensifica. Como a tecnologia e o deslocamento de mão de obra são os mesmos, o que muda são as circunstâncias, a necessidade aparente e quem se beneficia.
Da pergunta errada à pergunta certa
Para o autor, perguntar se design gerado por IA é ético é a pergunta errada. A pergunta mais exigente é: sob quais condições seu uso se torna injusto? Ele divide isso em duas partes: se a decisão foi justificada (a automação era necessária? havia alternativas razoáveis?) e como as consequências foram distribuídas (quem se beneficiou, quem absorveu o prejuízo, quais obrigações permaneceram com os trabalhadores).
Buckley também distingue dois casos que costumam ser confundidos: quando a IA substitui um designer que perderia emprego ou contrato, e quando não há designer deslocado - apenas alguém que nunca teve acesso a design profissional e agora pode produzir algo funcional. Nesse ponto, ele aponta uma contradição na profissão: o design fala constantemente de empatia e redução de barreiras, mas alguns designers condenam exatamente esses princípios quando a IA reduz a dependência de designers.
A objeção do treinamento e a autoria
O autor reconhece a objeção de que a IA foi treinada com trabalho criativo humano, frequentemente sem consentimento - debate documentado no relatório do U.S. Copyright Office sobre treinamento de IA generativa. Mas ele observa que designers também aprendem estudando trabalhos existentes e imitando estilos, citando Roland Barthes ("A Morte do Autor") para situar o problema da autoria. Ele admite que aprendizado humano e treinamento de IA não são equivalentes - escala, método, consentimento e compensação levantam questões legítimas - mas considerou esse debate mais amplo fora do escopo do artigo.
Conclusão
Buckley conclui que não há linha clara entre usos éticos e antiéticos de IA no design. O interesse legítimo dos designers em proteger o valor de seu trabalho não cria obrigação para que outros comprem esse trabalho - como no exemplo dos fabricantes de carruagens após o automóvel. A questão central não é se máquinas devem fazer trabalho humano, mas se a substituição é justificada pelas circunstâncias, quem se beneficia e quem paga o custo.