
Texas suspende novas licenças para data centers por causa da rede elétrica
Da exigência ao congelamento
O texto, escrito pelo investidor da a16z Ryan McEntush, analisa a decisão do Texas de suspender novas licenças para data centers. Segundo o autor, a fila de interconexão da ERCOT, operadora que gerencia a maior parte da rede elétrica do estado, passou de 63 GW de grandes novos clientes no fim de 2024 para 474 GW em junho, mais de cinco vezes o pico recorde de demanda, com cerca de 90% desse total ligado a data centers. O que começou como exigência para que os data centers pagassem as próprias melhorias na rede evoluiu para um congelamento de todas as novas autorizações. O autor diz que o calendário eleitoral faz parte da explicação, mas concentra-se nos problemas técnicos de energia.
Fila inflada e falta de transparência
Para o autor, a pausa diz respeito tanto à forma como os projetos pedem aprovação quanto aos projetos em si. Desenvolvedores apresentam propostas em vários locais ao mesmo tempo, e muitas são obras especulativas, sem cliente definido. Como a ERCOT não consegue separar projetos reais dos fictícios, e não quer que os consumidores paguem melhorias feitas para projetos que não se concretizarão, a análise fica travada. Há também um problema com as comunidades: ruído, água, emissões e contas de luz preocupam os moradores, e as empresas nem sempre respondem com clareza. Até junho, apenas 28 de 377 empresas tinham respondido a uma pesquisa estadual sobre uso de recursos. O autor reconhece que nomes de código são comuns na busca por terrenos, mas considera essa lógica mais difícil de defender quando autoridades votam incentivos fiscais.
Por que conectar à rede ficou difícil
Durante a última década, grandes compradores de energia, como a Amazon, encontravam uma concessionária com capacidade sobrando e assinavam contratos de longo prazo, muitas vezes apenas financeiros. Esse arranjo deixou de funcionar porque a rede está esticada e quase toda nova carga ou geração exige reforços. Como a energia flui por todos os caminhos conectados, comprar de uma usina não garante uma rota até o prédio. Por isso, compradores passaram a buscar energia firme, seja reativando usinas desativadas, seja construindo ao lado de usinas existentes. O autor afirma que nenhuma das duas opções é uma saída real e que a "colocalização" gerou algumas das disputas mais intensas. Ele cita casos como o de Susquehanna, na Pensilvânia, onde a FERC rejeitou a venda direta de energia de uma usina nuclear para um campus da Amazon, e o de Freestone, no Texas, aprovado com a condição de que o campus reduza a carga ou mude para energia de reserva em até 30 minutos após um chamado da ERCOT.
Os estudos de interconexão identificam quais linhas e subestações precisam de reforço. A ERCOT já analisava projetos individualmente, com regras feitas para 40 a 50 grandes cargas por vez, e em 2025 recebeu 225 novos pedidos. Por isso, em junho a PUCT aprovou o modelo de lote, chamado "Batch Zero", que analisa em conjunto cargas de 75 MW ou mais. Outro risco é a desconexão súbita: muitos data centers passam para energia de reserva ao primeiro afundamento de tensão, o que pode retirar uma carga enorme da rede em segundos. O autor observa que a ERCOT pode perder apenas cerca de 3,2 GW de carga de uma vez antes de causar problemas, e que uma nova regra de "ride-through" exige que novos data centers permaneçam conectados durante falhas de rotina.
Energia própria e seus limites
Como esperar pela rede custa caro, muitos desenvolvedores planejam gerar a própria energia no local, geralmente junto de uma conexão à rede ou como ponte até ela. O autor descreve casos em que a promessa de operar isolado não se sustenta por completo, como campos que mantêm uma linha de alta tensão próxima. Ele afirma que quase todos os sites que conhece pretendem se conectar à rede assim que possível, principalmente porque a energia própria costuma ser mais cara. Operar como ilha exige que a própria instalação forneça inércia, corrente de falta e tensão estável, algo que a rede oferece gratuitamente. Também há riscos de combustível: plantas a gás podem falhar juntas, como na tempestade Uri, e frequentemente têm pouco combustível armazenado. Manter um campus de 1 GW por uma noite de inverno de 14 horas exigiria 14 GWh em baterias, cerca de metade de todo o armazenamento da rede da ERCOT em junho.
O autor afirma que alguns laboratórios e hiperescalares já escolhem velocidade em vez de confiabilidade total. Ele cita a Meta, que usou tendas sem geradores de backup, e relata que compradores aceitam mais interrupções, com algumas ilhas projetadas para 99% de disponibilidade, o que equivale a cerca de 88 horas de parada por ano. Segundo ele, como o custo das GPUs é alto, uma ilha temporária pode fazer sentido mesmo sendo imperfeita.
Flexibilidade como ativo
A flexibilidade pode mudar essa equação. Um campus que consegue operar sozinho também pode ser mais fácil de acomodar para a rede. Um estudo da Duke, citado pelo autor, estimou que a ERCOT poderia acrescentar cerca de 10 GW de nova carga sem nova geração, caso essa carga abrisse mão de 0,5% de sua energia anual. Já um estudo sobre o PJM indicou que, para cada GW de nova carga de data center, tornar 20% dela flexível poderia economizar 78 milhões de dólares por ano para os outros consumidores. No modelo Batch Zero, grandes cargas têm duas opções: trazer a própria energia, desde que consigam reduzir o consumo em até um minuto se a usina falhar, ou aceitar cortes automáticos acima de sua parcela garantida quando as linhas estiverem cheias. Segundo o texto, 11 projetos escolheram o primeiro caminho.
O autor acrescenta que a Batch Zero ainda planeja reforços para toda a carga prevista de um campus flexível, mesmo que essa carga seja reduzida em momentos críticos. Ele afirma que a flexibilidade acelera a conexão, mas não diminui os reforços, e sugere que planejadores poderiam dimensioná-los menores se considerassem recursos que aliviam o mesmo gargalo, desde que medidos em tempo real e com desempenho confiável. Para o autor, porém, nenhuma quantidade de flexibilidade elimina a necessidade de mais geração e linhas.
Escala e cadeia de suprimentos
O autor calcula que operar 100 GW o ano inteiro consumiria 876 TWh, cerca de um quinto da energia usada pelo país em 2025. Segundo ele, as usinas solares, eólicas e a gás previstas para 2026 gerariam perto de 150 TWh por ano, cerca de um sexto desse total. Ele também nota que a China produz mais de 80% dos componentes solares e das células de bateria do mundo, e que Washington tem adotado medidas como tarifas e retenção de cargas por trabalho forçado. Além disso, transformadores de grande porte levam mais de dois anos para chegar, e o período de espera impede que a construção avance no ritmo desejado.
Custos e quem paga
O autor afirma que o problema de custos é central. Pelas novas regras da PUCT, que entram em vigor em 8 de outubro, o desenvolvedor paga uma taxa fixa de 100 mil dólares e um depósito de 50 mil dólares por MW. Se perde a capacidade reservada, perde apenas 20% do depósito. Segundo o texto, o depósito costuma cobrir apenas os reforços do próprio projeto, e não as linhas regionais mais caras, que todos pagam. Ao mesmo tempo, o autor reconhece que a população teme que as contas de luz subam: em uma pesquisa de agosto, 56% dos eleitores do Texas disseram que mais data centers prejudicariam as contas locais. Ele cita casos em que empresas ofereceram compensações, como Indiana, onde se propôs usar receitas de data center para reduzir contas em cerca de 100 dólares por ano, e Arkansas, onde um pagamento antecipado do Google foi tratado como adiantamento de energia, o que permitiria à concessionária cobrar o custo total da usina de todos os clientes.
Conclusão do autor
O autor defende que a pausa é difícil de justificar no caso das licenças. Ele considera razoável verificar se os projetos do Batch Zero são o que dizem ser e sugere que o Texas flexibilize a suspensão para geradores licenciados apenas para emergência e para projetos que já financiaram sua primeira fase. Também propõe que a concessionária responda por atrasos de forma semelhante aos desenvolvedores, e diz que o estado poderia abrir linhas a licitações competitivas com tetos de custo e penalidades. Para ele, o Texas criou uma via rápida para energia e agora pode mostrar um modelo melhor.